segunda-feira, 10 de agosto de 2015

Princesa africana

Quando eu vi seus braços abertos
E seu corpo envolto por longas tranças
Seus movimentos suaves
Que pareciam com passos de dança
A sua voz doce
E seu sorriso irradiante
Como os de uma criança
Suas palavras que iluminavam quem estava diante de ti
Foi nesse momento
Ouvindo as suas poesias
Que eu pude sentir
Que a nossa energia ancestral era tão grande
Que a sua força de mulher de origem periférica e negra
Era contagiante
Foi apenas um instante
Pra eu me apaixonar
E quando você se aproximou de mim eu pude confirmar
Que era muito mais do que poderosa e bela
Quantas qualidade eu pude enxergar
Além de inteligente, ainda tinha humildade
A nossa amizade viraria irmandade
Ela era sensível a dor, sensível ao amor
Nada do que ela dizia era sem sinceridade
Se com palavras eu pudesse expressar o que eu sentia
Talvez meu sentimento fosse chamado de empatia
Que significa reconhecer-se no outro
Mas parece que ainda era muito pouco,
Essa palavra ainda não definia
De origem bantu, fui buscar a palavra certa em nossas raízes de negra mulher
E agora eu posso te dizer, Pâmela, minha princesa africana
Ubuntu
Isso significa que eu sou
Porque você é

domingo, 9 de agosto de 2015

Quando não é machismo

Tem gente que adora falar que agora virou moda essa coisa de ser feminista
Porque todo mundo pode protestar
Desde que esse todo mundo não seja uma mina
E a gente já sabe que desde a maçã e o Adão
O grande problema do homem de bem sempre foi a buceta
Mas por essas histórias eu nunca vi malandro nenhum levantando pra contestar a bíblia
E muito menos a igreja
Então deixa com a gente mesmo
Porque se a história é nossa
Deixa que nois escreve
As bruxa vão continuar falando e as fogueiras queimando
Desde Joana Darc a gente sente na pele
Mas agora a gente não vai sozinha
Nós estamos queimando em muitas
Mas queimando de febre
Porque se tem uma coisa que me deixa doente
São as coisas que eu aprendi desde que eu me entendo por gente
Quando eu penso nisso minha cabeça até ferve
Tanta coisa ruim que eu escuto e reproduzo desde que eu nasci
Sinceramente eu sinto até vergonha
E até hoje antes de agir eu paro pra refletir
Eu fico atenta antes de olhar pra qualquer mina como se ela fosse minha inimiga
Antes de diminuir outras mulheres e sempre desconfiar de melhores amigas
Antes de pensar que mulher que sofre violência doméstica gosta mesmo é de apanhar
Que mulher solteira é fracassada porque não arrumou nenhum homem pra casar
Que mina com roupa curta só é assediada porque não sabe se valorizar
Ainda bem que eu percebi a tempo que com esse meu pensamento
Nada ia mudar
O foda mesmo é abraçar essa causa
E além de tudo isso ainda ter as picuinha de macho ofendido pra aguentar
Eu finjo que não entendo
Mas eu sei muito bem porque nossa resistência
Tem gente que subestima
Dor de mulher eles tratam igual médico de postinho
Isso é virose, cura com um tapa e três aspirina
Eles sabem cobrar o Estado, a polícia, os racistas
Mas quando o B.O esbarra neles
Aí eles mandam abaixar o dedo e parar de se fazer de vítima
Com certeza nunca prestaram atenção em quem é que o machismo atira
Pode apostar que essa bala mata muito mais do que a mulher que eles pensam que tá na mira
Ela mata as irmãs, as tias, as sobrinhas, as filhas
Ela mata as negras, as brancas, as gordas, as magrelas
Ela mata toda mãe solteira da favela
Aquela que todo mundo costuma chamar de puta
Mas que cria sozinha os cinco filhos dela
Sem falar naquele outro rapaz que eu conheci numa história triste
Tava perdido e depois de tanto apanhar matou o próprio pai
E o discurso contra a mulher ainda persiste
A culpa caiu na mãe do menino por escolher viver com um homem violento e bêbado
Enquanto o machista alcoólatra virou até santo no dia do enterro
E esse machismo faz com que toda mulher se sinta culpada
Até na hora de denunciar
Desde a história mais grave até o fiu fiu
O melhor que a gente faz é se calar
Porque ai da gente levantar a voz e ainda querer se revoltar
No sarau de poesia, na internet, na delegacia
Tem sempre um cara com três pedras na mão pronto pra poder jogar
Eles falam: cês tem Lei Maria da Penha, tem delegacia, que mais que vocês quer?
Meus deus, será que eles sabem mesmo como mulher violentada é tratada na delegacia da mulher?
Sabe quando você toma um enquadro e é humilhado sem ter feito absolutamente nada?
Quando eles grita no teu ouvido: Deita no chão, filho da puta, senão cê vai tomar porrada!?
É desse jeito que eles falam quando ela senta pra falar
Depois de ser estuprada sabe quais são as perguntas que ela ainda tem que escutar?
“Cê fez o que pra esse cara? Com que roupa você tava?
Tem certeza que cê não queria? Cê tava bêbada!
Pode ir que teu corpo num tem nem marca!”
E eles ainda acham que a gente gosta!!!
Eles acham que a gente adora uns cara falando merda enquanto a gente tá indo trampar
“Ah, mas tem mina que gosta sim! E tem outras que também vem me cantar!”
Primeiro que a gente sabe muito bem que os cara acha que a gente é um pedaço de carne
Ninguém tá ali pra elogiar
Segundo que uma mina também pode querer ser seduzida
E isso não quer dizer que ela tá numa vitrine pra comprar
Terceiro que eu vou mandar o papo reto
Porque ninguém é mais otário e é o seguinte
Não adianta tentar apagar as atitudes machistas
Porque a gente sabe muito bem que dezenove não é vinte
Não é feio quando a elite vai falar de redução da maioridade e vem com papo que a lei só protege bandido?
Quando branco pra tirar o dele da reta fala que já sofreu racismo porque chamavam ele na escola de palmito?
É assim que vocês costumam tratar o feminismo!
Dizendo que tudo isso que a gente reclama
É só porque a gente quer ser melhor do que o homem
Que machismo não existe
E no final das contas todo ser humano é ignorante
Sinceramente, vocês vão me desculpar
É no mínimo desonesto comparar certas coisas e dizer que mulher não tem do que reclamar
Parece que só eu não entendi que é um sonho eu esperar reflexão de quem não para nem pra escutar
Tem gente que só entende certas coisas quando é conveniente e eu já cansei de explicar
E pode até ser utopia, mas mesmo assim eu acredito que esse mundo ainda vai mudar
Mesmo com os olhos cegos pro patriarcado e pro machismo
Mesmo com gente que reclama do sistema
Mas não enxerga todo mundo que ele esmaga
Porque a visão revolucionária só vai até o umbigo
E no final das contas toda luta contra a maioria é mesmo isso
Pouca gente ou quase ninguém vai somar
Só meia dúzia de cara vão assumir os privilégios e colaborar
E vão ser poucas minas também que vão estar dispostas
Porque pra ser feminista tem que ter disposição pra ouvir um caminhão de bosta
E infelizmente sempre conseguem transformar o oprimido em opressor
E até as mina se ilude nas ideia torta dos cara querendo ser professor
Porque é melhor assim
Só querer ensinar e não aprender é a melhor saída
Como eles mesmos dizem
A gente só quer cobrar dos outros e não assumir as nossas próprias dívidas
Pra algumas pessoas não interessa nem um pouco rever as atitudes machistas
Muito menos concordar com as preocupações fúteis de um bando de louca feminista
Porque no fundo a mulher que eles gostam mesmo é a mulher que não grita
A mulher que só aplaude as militâncias, mas que não milita
A mulher que aguenta toda a injustiça e violência de boca fechada e de cabeça erguida
Mas é pra essas cabeças pequenas mesmo que eu tenho uma má nóticia!
Os tempos mudaram e eu vou continuar sim o meu protesto em forma de rima
Porque os faladores falarão
As coisas infelizmente são como são
E  eu não ando muito otimista
Tem uns cara que até lêem Simone de Beauvoir
Só que na hora do vamo ver é hasta la vista
Eles sempre vão ter coragem de aplaudir os POW dos mano
Mas vão virar as costas pros PÁ das mina

Desabafo

Eu chego a achar engraçado
O tamanho da hipocrisia
O tanto de like que eu ganho
Quando eu posto uma foto minha
Os comentários são sempre os mesmos
Nossa! Que nega linda!
Maravilhosa, poderosa!
Você parece uma rainha!
Assume sua negritude mesmo
Seu black é tudo de bom!
Como eu acho lindo ser pretinha
Se eu pudesse eu seria marrom
Deixa eu contar uma coisa pra vocês
Eu adoro mesmo esbanjar toda a beleza da minha pele
Mas parece que minha negritude só serve
Quando eu tô de boca fechada tirando uma selfie
Porque o que ninguém entende é que ser negro vai além da fotografia
Ser negro é ter consciência
De todo racismo, segregação e injustiça
E quando eu paro pra falar sobre o que meu povo passa
Sobre toda falta de educação, oportunidade e desgraça
Aí eu não sou mais a neguinha linda, eu sou a neguinha chata
Que adora falar demais e ficar tocando nesses assuntos sem graça
Desculpa, seus hipócritas
Mas eu não sou seus bibelôs!
Minha carne é barata
Mas nas minhas veias corre sangue nagô
Desculpa se eu não me esqueço
Desculpa se eu não me cego
Mas minha identidade negra não é moda
Eu levo isso muito a sério
E eu vejo como é fácil me elogiar
E como é difícil reconhecer os privilégios
Mas vocês também não vão me calar
Eu vou falar sim tudo o que eu quero
Eu não sambo mais pra sua diversão
Agora eu sambo é nas suas caras
Você não conhecem metade da minha história
Eu sou filha de Dandara
E eu dispenso os seus falsos elogios de alforria
Eu sei muito bem qual é o lugar que vocês costumam me achar bonita
Pra vocês não existe racismo
Pra vocês a gente se faz de vítima
Meu mais sincero foda-se
Pra essas cabeças pseudoconscientes
Que adoram ficar pagando na internet
Pras mina de black
Que eles acham que não são pretas
São alternativas

segunda-feira, 3 de agosto de 2015

Tribunal social

Uma mulher
Negra
Parada
Diante de olhos que esperam que ela fale sobre amor
Sobre dor
Sobre nada
É isso que mulher faz de melhor
Todos só a amam mesmo
Se ela permanece calada

Mas ela falou
Desengasgou
Palavras de rancor
E desencadeou olhares de descaso
Falatórios
Foi um passo
Pra ser odiada
Diminuída
Linchada
Vozes bradaram
Mãos bateram no peito
Exagero
Isso é um exagero!
Piada
Eles riram
Isso é uma piada!

Essa mulher negra louca mal amada
Falando como se fosse Malcolm X
Parece praga
Igual barata
Mata uma
E nascem dez
Falando feito papagaias
Sobre respeito
Sobre orgulho
Sobre direitos
É preciso silenciá-las
Isso tudo não passa
De uma maldita conversa fiada!
Mulher tem que ser doce
E não autoritária
Não deixem que elas falem por ninguém
São só loucas
Querendo mostrar a cara

É só uma mulher
Negra
Desnorteada
Coitada
Vestindo camisa dos panteras negras
Essa menina não sabe de nada
É melhor que continue parada
Calada
É isso que mulher faz de melhor

Apontando o meu preconceito
Só pode estar enganada
E eu sei do que estou falando
Eu conheço a caminhada
Se fosse homem tudo bem
Mas essa moça é uma ameaça

Agora deu pra pensar
Ou até pior
Deu pra falar o que pensa
Só pode ser dorzinha de mulher mesmo
A gente dá um jeito nisso logo
Vamos ver se ela aguenta

sexta-feira, 3 de julho de 2015

O curioso caso dos esquerdomachos

Ah! Os esquerdomachos... Criaturinhas que vistas de longe são pessoas totalmente formadas em sua consciência social e política, pessoas maduras e sábias. Só que quando enxergam-se como alvo do próprio tiro, tudo muda. Aí fica difícil reconhecer privilégios... E a voz engrossa, e a mão bate no peito e o esquerdomacho recolhe-se a sua arrogante pequenez.
De esquerda sim, mas antes de tudo, macho. E o que os machos fazem? Os machos cantam de galo.Os machos fazem discursos machistas. "Milita comigo, mas não quer dar pra mim? Vadia.""Quer uma sociedade livre, mas não quer relacionamento aberto? Paga de santa, mas todo mundo sabe que é vadia."" Acha que eu, homem militante, sou machista? Mal amada." Entre outras variações.
Se os argumentos não são suficientemente bons para combater discursos de ódio vindos de uma mulher, por que não usar de discurso de ódio também? Por que não usar de machismo? Por que não usar de xingamentos que inferiorizam a mulher denotando sua liberdade sexual? Por que não demonstrar descontentamento com expressões criadas especificamente para rebaixar mulheres? Engraçado que quando querem se ofender, homens não se xingam de piranhos, mas sim de filhos da puta. Opa! Adivinha quem é hostilizado nesse xingamento também?
Para os esquerdomachos as feministas são em sua maioria radicais. Existe uma carência maternal entre eles, tudo deve ser explicado carinhosa e delicadamente, para que eles se conscientizem de uma realidade que não vivem. Quando defendem suas convicções de forma assustadoramente contundente, lúcida e até mesmo agressiva são verdadeiros homens. Mas quando uma mulher defende suas convicções da mesma forma, a infantilidade só os permite a taxarem de: louca. Um homem sobe ao palanque e grita: "Morte à direita conservadora e assassina!", todos aplaudem, todos justificam, todos compreendem. Uma mulher sobe ao palanque e grita: "Parem de encher meu saco na rua, seus bostas!", e ela é considerada simplesmente uma exagerada por não compreender o desejo carnal inerente ao homem. Os caras praticamente debocham de sua própria capacidade de controle e consciência nesses momentos.
Eles raramente se interessam por algo que não os afeta diretamente, por isso, obviamente, não se interessam por feminismo. Geralmente reduzem o machismo a práticas violentas e estupro. Abusos sexuais diversos, abusos psicológicos, desigualdade social e econômica causada pela questão de gênero... Conversa! Nada disso diante de seus olhos, geralmente tão críticos, pode ser considerado parte do sistema de uma sociedade desigual e machista. Até porque se considerassem isso, teriam, provavelmente, que incluir suas próprias atitudes e discursos nesse sistema e eles detestam o sistema.
Entretanto, temos os esquerdomachos feministas. Eles dizem lutar pelas mulheres. Uhul!Eles gritam pela igualdade. Uhul! Mas reconhecer protagonismo feminino? Nã na ni na não. Desconstruir machismo na rodinha de amigos? Nã na ni na não. Quando uma mulher pede para um esquerdomacho para que ele se retire do seu local de fala e para que ele vá desconstruir em ambientes masculinos o machismo, adivinha o que acontece??? Isso mesmo, o discurso de mulher radical, histérica e arrogante retorna sem titubear. Incrível! E, enquanto isso, os amigos tão esquerdomachos quanto ele, destilam seu veneno machista. Pergunta se ele tem cu pra ir lá desconstruir? Se ele  tem cu pra pedir uma reflexãozinha sequer? Longe disso, é curtida atrás de curtida para os gênios.
É importante lembrar, antes que me taxem de algo que não se resume à "delicada" e "fina", que essa definição não se trata de implicância, não se trata de criminalizar o gênero masculino simplesmente por existir. Trata-se de um pedido de questionamento, uma cutucada mesmo. Reconheça seus privilégios e saiba que a militância não vai até a sombra do seu umbigo. Pergunte-se coisas como: por que considero o discurso da mulher sempre mais fraco, mais raso, mais "mal-amado', mais pretensioso que o meu? Por que uso de manobras que julgo desonestas para julgá-las? Por que combato opressão com opressão quando se trata de mulher? Será que isso me atinge? Será que contribuo pra uma sociedade melhor tratando com indiferença os descontentamentos das minas? Será que eu não sou um machista de merda mesmo? De que forma posso colaborar ao invés de ficar fazendo birrinha?
Esquerdomachos, por favor, reflitam. Se vocês gritam por quem não tem consciência ou voz, nós não fazemos diferente. O mundo e a luta não é só de vocês e nem só sobre vocês. Sejem menas. E vamos juntos ser mais.

sábado, 27 de junho de 2015

Mãe-solteira

Piranha
Vagabunda
Safada
Puta
Biscate
Vadia
Você não falou que tava tomando remédio?
Foi de propósito que criou barriga!
Que que tem aí no seu bucho?
É menino ou é menina?
Se for menina vai chamar o que?
Maria Sapatão ou Maria Gasolina?
Com certeza vai ser uma vaca interesseira igual a você
Que não vale nem o dinheiro da minha pinga!
Eu não quero filha mulher macho, não
Duas mina se pegando só se for Brasileirinhas
Aí eu até bato uma punhetinha
Também não quero filho viado, não
Eu não suporto essas putaria
Quer saber?  Eu não quero problema pra mim
Vai criar esse filho sozinha!

A mãe se perdeu
O filho nasceu
Era menino!
Menino que cresceu
Menino que aprendeu
Menino que conheceu
E aos 16 engravidou uma menina
Quando ela contou o que aconteceu
Sabe o que ele respondeu?

Piranha
Vagabunda
Safada
Puta
Biscate
Vadia
Mulher é tudo filha da puta mesmo
De santa só a minha mãe e a Virgem Maria

quarta-feira, 24 de junho de 2015

Eu me lembro

Eu me lembro de desde muito pequena ter que lidar com injurias raciais. Eu me lembro de perguntar para minha mãe muito cedo, muito cedo mesmo, tipo com uns cinco ou seis anos, como responder aos meus coleguinhas que me rechaçavam por conta da minha cor. Eu me lembro dela dizendo pra eu chamá-los de "baratas descascadas". Eu me lembro de saber que esse xingamento não doeria tanto neles como doía em mim o que eles me diziam, mas mesmo assim eu me defendia. Eu me lembro de, mesmo que nunca tenha sido dito com todas as letras, eu ter consciência de que ser negra talvez não seria uma coisa lá muito boa. Eu me lembro de querer muito ser igual as minhas amiguinhas brancas, ter sua cor de pele, seu cabelo. Eu me lembro de ter chegado chorando da escola, porque mesmo me destacando e sendo a preferida da professora, eu não tinha sido escolhida para ser a princesa da apresentação final. Eu me lembro de que eu seria a rainha das bruxas. Eu me lembro de questionar a minha mãe sobre isso e ela não ter resposta. Eu me lembro de que depois de minha mãe conversar com a escola, professora e diretora, todos me disseram que aquele também era um papel importante. Eu me lembro da princesa, de seus olhos azuis, de seu cabelo loiro. Eu me lembro de que a coloração do lápis "cor de pele" não se aproximava da cor da minha pele e eu não entendia muito bem. Eu me lembro de ter ido até a casa de uma coleguinha fazer um trabalho em grupo, e que ela e outra amiguinha do grupo em um certo momento começaram a rir bastante de mim, e quando eu entendi o motivo, fui embora e nunca contei nada a minha família. Eu me lembro de uma desconhecida que mandava eu sair de perto em uma festa junina para que eu não encostasse "aquele cabelo" na comida dela. Eu me lembro de gostar muito que minhas tias trançassem o meu cabelo, assim ele não parecia tão armado. Eu me lembro de não correr muito nas festinhas, assim meu cabelo não ficava tão armado. Eu me lembro da primeira vez que alisei o meu cabelo. Eu me lembro de um colega de classe que me humilhou durante dois anos por conta da minha boca. Eu me lembro de todos se sentirem bastante desconfortáveis com a forma claramente racista que ele falava aquilo. Eu me lembro de que mesmo assim todos permaneciam calados, inclusive eu. Eu me lembro da minha felicidade quando diziam que eu não era negra, eu era moreninha. Eu me lembro de que até certo tempo os meninos do clube nunca me escolhiam. Eu me lembro de uma menina do clube fazer questão de me dizer que o irmão dela nunca pegaria aquela... ela riu. Eu me lembro dela dizendo que a mãe dela detestava que ela andasse com aquelas "neguinhas", no caso eu e um grupo de amigas minhas da época. Eu me lembro de ser a única pessoa de rastafari em um colégio pago. Eu me lembro de ser uma das únicas pessoas negras em um colégio pago. Eu me lembro do quanto as pessoas da minha cor eram inferiorizadas no colégio, Eu me lembro de como elas eram reduzidas a isso. Eu me lembro de, em certo ponto da adolescência, dizer não ter problemas com isso, pra poder me auto-afirmar, pra poder me sentir mais forte, e então, comecei a fazer piadas comigo mesma do tipo: "Ah! Isso é só porque eu sou preta!",  "Ah! Eu só podia ser preta!". Eu me lembro de que assim eu não parecia excluída e nem chata.
Eu me lembro de na semana passada ter visto uma garota negra se aproximar de uma roda de adolescentes pra cumprimentar alguém, e no segundo em que ela se virou, sua cor ter se tornado motivo de piada. Eu me lembro de no mês passado eu ter ido a um museu e um homem ter me dito que meu cabelo tamparia todas as obras de arte, como se quisesse dizer: "como você tem coragem de andar com isso?". Eu me lembro de há poucos anos um cara ter me dito que eu era a primeira pretinha que ele pegava, em um tom irônico, como se eu fosse uma espécie exótica e rara e eu pensei que provavelmente aquela observação já devia ter sido piada entre ele e os amigos.
Eu me lembro de todas essas coisas. Só que sei que todos esquecem todos os dias do porquê. O negro além de excluído, marginalizado, prejudicado pela história, ainda é inferiorizado nessas "pequenas" atitudes. Ninguém se lembra de olhar pra trás e perguntar: por que isso ainda acontece? Ninguém se pergunta porque têm tanta vontade de perpetuar isso, de punir pessoas negras por conta de sua cor e disfarçar isso de brincadeira, opinião, gosto. Quase nenhum branco se lembra de que nunca passou por isso e que não tem a menor propriedade pra falar sobre. Poucos negros tem a consciência de que passar por isso é consequência de um longo sistema preconceituoso e opressor que nos diminui perante aos demais.

As pessoas têm coragem de olhar nos meus olhos e me dizerem que não existe mais racismo. Que isso é coisa do passado, que não sou mais escravizada e nem violentada, e que eu exagero. Que é coisa da minha cabeça. Que eu incentivo atitudes racistas falando tanto disso. Que eu tenho preconceito comigo mesma. Que eu me vitimizo por relatar a minha própria história. A minha própria história!
Eu me silenciei até agora e, vejam só, nada disso deixou de acontecer. E vai continuar acontecendo, pois, assim como eu, as crianças já nascem em uma sociedade de estrutura racista e sabem inconscientemente desde cedo como a coisa funciona. E se tornam adultos opressores e oprimidos. Por isso eu não tenho vergonha de me empoderar e de empoderar crianças e mulheres negras como eu. Eu não ligo se essa expressão "empoderamento" incomoda alguém. Eu não ligo que o fato de eu andar por aí afirmando a minha negritude e o orgulho de ser negra incomode alguém. Eu faço questão que meu cabelo esteja armado e que meu turbante seja motivo pra que a pessoa não se recolha a sua insignificância e venha até a mim debochar. Eu vou continuar. Eu vou continuar falando sobre assuntos "chatos". Eu vou continuar cutucando a ferida. E vou continuar lutando por quem se feriu.

PORQUE EU ME LEMBRO E NÃO PERMITO QUE NINGUÉM ESQUEÇA.