terça-feira, 2 de janeiro de 2018

Se te imagina
Sozinho
No meio da selva
Se é capaz
De pensar
Em ser
Num espaço
Inóspito
Se te depara
Com a onça
O que te vem
A cabeça?
"Não olhe nos olhos dela,
Não encare
A fera"
Que besteira...
O bicho percebe
A decência
De quem não desvia
Por medo
Ele espera
Um olhar de respeito
Pra dividir seu espaço
Com o outro
a lágrima escorre
seca
o resto é que está
molhado
a vida mais uma vez
chega
transbordando
meu coração
inundado
cansado
em meu velho barco
sob o silêncio de um
sol iluminado
permaneço
queimando
sozinho
entre as correntezas
incrédulo
estático
e como quem protege
os grandes amigos
o vento
me sopra aos ouvidos:
você já conhece
as águas
não durma
não pule
cuidado
A história d'ÁFrica vive
Quando renasce em carne
Pelo vibrar do couro
quem tu não tocas
não te conheces
assim como a poesia
és aquele que
vai
ao encontro da palavra
és aquele que
vai
ao encontro da imagem
és aquele que
vai
ao encontro do mar
(re)conheces
linhas como versos
vida como ciclos
universo como onda
um processo que ainda
não se completou
estás sempre diante
da primeira estrofe
se a vence
aprende como pode ser
se não a vence
tenta saber como é
quando a enfrenta
sabes que o ritmo
é o equilíbrio
que o que acaba
permanece para o novo
num infinito e repetitivo
presente metamórfico
como o poema que existe
a espera do outro
como a paz oscilante
da tua existência no mundo
como o êxtase fluido
que acomete quem é
tocado no fundo
por você
e eu te digo
só os boemios amam
com certeza
o tesão nos engoliu
enfiando-nos
nos antros escuros
de uma cidade imensa
e a noite negra
negra
negra
você fica tão lindo
quando acende um careta
perdidos em horas intensas
seguimos tortos caminhos
às avessas
entre tropeços
salivando pecados
nosso beijo em brasas
me deixa dispersa
sem direção
por aí
andamos tontos
libertando em gozos
as vontades presas
retinas tomadas
pelas pupilas dilatadas
rotina regada
à cerveja gelada
e trepadas perfeitas
e ainda nos vemos
com os primeiros olhares
a rua lotada
o rap de trilha nos bares
os becos, as balas
e a noite negra
negra
negra
pela janela do mundo
a lua ilumina
as nossas peles pretas
Às minhas crias
Não oferecerei o pão da sabedoria
Não provarão sabor de conhecimento
A ignorância será sua benção
Ficarão protegidas
Da História por de trás da História
De qualquer teoria ou ideologia
De qualquer dúvida
De qualquer resposta ao senso comum
Que passem fome!
Mas não se frustem...
Não cheguem ao doloroso ponto
De precisar provar-se
Sem poder gozar da liberdade
De estarem alheias à superestimada
Tragédia do pensar
E que deus livre meus rebentos
De serem prodígios
Grandes gênios, letrados sensitivos
Os pensadores são como vermes
Que corroem todo resto
Até ficarem sozinhos no próprio mundo
A mente acaba por desenvolver-se
Ao ponto crítico de saber-se
E é aí que está feita
A maior das desgraças
A vida perde toda a graça
E a tudo se questiona
Não têm fim as verdades
E quanto mais as miram
Mais sentem-se pela metade
E ensimesmam-se
Em um abismo de si mesmos
Trancafiam-se, misantropos
Esperando que até o fim não se deparem
Com outras cabeças que sabem
Qualquer coisa a menos
Ou outras tantas
O homem que engrandece mulheres
Despejando em vão doces palavras
Como quem estimula a concha
Só para aproveitar suas pérolas
Não passa de um grão de areia
Não passa de um entre milhares
Pode até conhecer bem os mares
Mas não sabe navegar