terça-feira, 26 de janeiro de 2016

Fui
Como as mulheres de minha família
Paciente
Com toda
Irresponsabilidade
Passividade
Mentira
Perdoei com a desculpa de que você
Nunca soube direito o que fazer
Quando no fundo eu sabia
Que você fazia tanta coisas
Sem que eu soubesse
Lembro disso
Quando me vem
A noitinha ou logo de manhã
Um tipo de buraco na boca do estômago
Um buraco pesado
Que amolece o corpo
Quando choro escondida no banheiro
Lágrimas que caem naturalmente ferozes
Como tempestades
Eu lembro
Que fiz minha parte
E tudo que eu ouvi foi
Silêncio
Seu ego me viu secar
Como aquelas rosas que a gente colocava em garrafas de cerveja usadas
Nós demoravamos pra tirá-las de lá
Porque elas pareciam belas
Mesmo mortas
Mesmo sem transmitir nenhum tipo de alegria
A gente enconde a verdade de nós mesmos
Quando é mais fácil
Ou quando dói

Pulei

Não existe nada pior do que viver em uma inércia cômoda. Nada é mais doloroso. Nem o fim. Nada pode ser mais doído do que levantar questões e não escutar respostas, do que conversar sozinho. Não faz bem nunca ouvir elogios, pior ainda é nunca ouvir putaria. É triste dormir sendo enganado. É decepcionante não ver esforço para que você sinta admiração, ou simplesmente para que você fique. Viver assim é como estar indeciso a beira de um penhasco ao lado de alguém que acha que você nunca vai ter coragem de pular.

terça-feira, 12 de janeiro de 2016

Sororidade preta: o sentimento antes do termo

Aquele olhar.... O olhar de reconhecimento. Que preta nunca o recebeu? Quando saímos do nosso ambiente de convívio e enxergamos lá fora alguém como nós, os olhares se cruzam e uma sensação boa invade o peito, a sensação de irmandade.
Antes de saber o que era sororidade, era isso que eu sentia sempre que via uma mulher negra. Mesmo ainda não me reconhecendo negra de fato, mesmo nem um pouco próxima das questões feministas e raciais, eu sempre vi em outra mulher negra algum tipo de proximidade.
Desde criança isso acontece, quando via outras crianças negras, principalmente meninas, meus olhos se acendiam como estrelas e eu olhava, daquela maneira indiscreta que as crianças costumam olhar, para o outro que era maravilhosamente ou assustadoramente, igual a mim. Sim, porque também assustava saber que existia outro alguém no mundo que se sentia como eu. É claro que como criança eu não tinha esclarecimento sobre esses pensamentos, eu apenas me sentia assim.
E mesmo depois de crescida, isso não se perdeu, é inevitável que no ônibus, na rua, no mercado ou em qualquer lugar meu olhar cruze-se com o de outra preta, como se fosse um código, como se fosse impossível não olhar uma para outra como se já nos conhecêssemos. Um sorriso, um tratamento diferente, uma facilidade de empatia, acabamos sempre nos relacionando de forma mais íntima.
As vezes a sensação de se enxergar no outro traz um misto de sensações, pode ser difícil se não é assim que você quer se reconhecer. Pra mim o processo de me reconhecer negra demorou, por conta do que esse reconhecimento carrega. Precisei esclarecer antes algumas questões, precisei saber o que significava tentarem me convencer que eu não era negra e sim “moreninha”, precisei compreender várias situações da minha vida e porque elas ocorreram, e foi aí que entendi que eu não estava sozinha, que nós eramos muitas e que não havia nada de errado nisso, que aquela sensação diferente que eu sentia quando encontrava uma outra mulher negra, era simplesmente uma busca pelo meu próprio eu. Aquelas mulheres que eu olhava na rua eram negras, as mulheres da minha casa eram negras e isso se tornou maravilhoso, porque enfim eu também podia SER.
Fui há um tempo atrás acompanhar uma amiga em uma escola para uma palestra sobre racismo, estávamos eu, ela e mais uma amiga, todas negras. Era uma escola de periferia e muitas crianças também eram negras. O olhar fraterno vindo das crianças foi instantâneo, e senti que aquilo não aconteceu só porque eramos adultas falando para toda classe, mas também porque havia um reconhecimento. Além da nossa fala, a nossa presença, a nossa imagem, como mulheres negras que se reconhecem como tal, fez muita diferença. As meninas se sentiram a vontade para se aproximar e falar sobre suas famílias, sobre suas experiências, sobre seus cabelos, foi bastante significativo pra mim.
Assim como também me marcou o olhar de uma menininha dias atrás numa pizzaria, ela parou o que estava fazendo quando eu cheguei, nós estávamos coincidentemente vestidas de maneira parecida, com o cabelo exatamente igual. Os olhos dela me seguiram por toda a pizzaria, acompanhando meus movimentos, a mãe, ao lado dela, imediatamente sorriu pra mim e nós soubemos o que tudo aquilo significava, mesmo sem termos trocado uma única palavra.
Logo que comecei a faculdade, sozinha, sem dividir com ninguém, comecei a me indagar sobre o que era ser negra. Todos os dias quando eu ia pegar o ônibus para ir até o estágio eu via uma moça. Ela era negra, muito bonita, vestia roupas lindas e tinha o cabelo mais lindo que eu já tinha visto. Diferente de mim, ela usava o cabelo natural, sempre pintado com cores vibrantes. Carregava algum tipo de pasta, ficava pensando, o que ela será que ela faz? Arquitetura? Moda? Alguma coisa legal, com certeza. O meu olhar para ela era aquele. Mesmo que eu não fosse como ela, eu gostaria de ser, ela me inspirava, tinha autoconfiança, tinha estilo e estava com a sua pasta buscando algum tipo de conhecimento, buscando fazer algo que ela gostava. O meu pensamento era basicamente: “Olha minha irmã ali do outro lado, ela pode ser o que ela quiser, então eu também posso”.
Passei anos observando essa moça pelas ruas, enquanto fui crescendo, fui evoluindo, fui cada vez mais me aproximando da minha identidade, refletindo sobre o que é ser uma mulher negra e reverberando esses pensamentos.
Dia desses vem uma surpresa, essa mesma moça que mudou tantas coisas em mim, mas com quem eu nunca tive a oportunidade de conversar, me deu um inesperado abraço e disse no meu ouvido: “Obrigada pelo o que você tem feito”. Eu não sei exatamente o que eu tenho feito, mas isso teve um significado enorme pra mim. Não pelo que me foi dito, mas por quem foi dito. Saber que posso chegar de alguma maneira a uma irmã me faz mais feliz.
Nós, mulheres negras, precisamos de mais representatividade, porque essa busca por olhares iguais aos nossos nada mais é que uma carência da sensação de pertencimento. Ainda somos apagas, excluídas e segregadas. Condicionadas a espaços subalternos, estereotipadas, diminuídas. Estamos nos piores lugares das estatísticas. A nossa irmandade inconsciente também nos faz mais fortes na caminhada. Um salve a todas as pretas que encontrei e encontrarei pelo caminho!

 

segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

Meu feminismo é para quem? O mito da mulher forte

Diversas vezes faço questão de me fazer certas perguntas como: meu feminismo é para quem? Meu feminismo é para que? O que pretendo com a ideia de não culpabilizar mulheres ou de ter sororidade? A quem pretendo proteger ou apoiar? Pelos direitos de quem eu luto? O que, de fato, estou mudando em mim e na minha maneira de enxergar outra mulher quando me autodeclaro feminista?
Sou uma mulher negra, sei e vou percebendo quais são as opressões que me atingem, as leis que não me contemplam, como a sociedade se comporta quando se trata das minhas questões. Procuro também saber o que atinge as mulheres que estão a minha volta, as feministas com quais eu milito, minhas amigas e familiares.
Só que será que eu compreendo o que não faz parte da minha realidade? Entendo aquilo que sai fora dos meus padrões? Será que ainda não faço muito juízo de valor de realidades das quais eu não participo? Será que posso entender mulheres que não tem a mesma consciência que a minha?
A grande obrigação da mulher na sociedade patriarcal é ser submissa. Muitas mulheres, por inúmeros motivos, acabam se desprendendo desse papel e se tornando de alguma maneira independentes. O problema é que quando saímos do papel de submissão, ainda acontece de nos condicionarmos e condicionarmos outras mulheres a outro papel submisso, porém um tanto quanto disfarçado de força, o papel da resiliência.
Mesmo nos dizendo feministas, para muitas de nós as mulheres ideais ainda seguem certos padrões. Alguns exemplos são o da mulher que é “melhor que isso”, ou seja, a mulher que passa por uma situação difícil, ignorando e seguindo em frente, ou o da mulher que sofre sim, mas de cabeça erguida. O que nós fazemos é disfarçar o quanto uma mulher pode ser atingida colocando-a  na posição daquela que suporta tudo mantendo-se digna.
A mulher que sai desse padrão de resistência cega quase sempre é considerada louca, imoral ou fraca, ela nunca é considerada uma mulher forte e admirável. Ainda nos falta, muitas vezes, um olhar compreensivo para a mulher que não sabe lidar com certas situações machistas de um jeito supostamente inabalável, com a mulher que acaba assumindo papéis que não aprovamos e que discordamos, com a mulher que sucumbe a fragilidade e submissão em um mundo que não apoia suas decisões e desejos.
Também assumimos muito o papel da mulher resiliente sem perceber que se trata de um papel que nos coloca em segundo plano, muitas vezes abdicamos de desejos próprios e enfrentamos dificuldades descabidas para nos encaixarmos ao que é esperado de nós e a imagem a qual queremos transmitir. Realmente, cada vez mais, nos tornamos e nos orgulhamos de sermos mulheres independentes e com voz ativa, tomamos as decisões familiares, temos controle sobre nossos planos profissionais, não nos deixamos abater pelos padrões estéticos. Só que ao mesmo que conquistamos esse poder sobre nós mesmas, algumas de nós ainda carregam o medo de que a imagem de esposa perfeita, de fortaleza que organiza a casa, de base para educação das crianças, de guerreira que enfrenta tudo e todos seja manchada entre família e amigos. Ainda enxergamos a imagem da mulher forte como aquela que não fraqueja nunca, com isso acabamos não permitindo que nenhuma de nós fraqueje.
Os relacionamentos abusivos são uma realidade para inúmeras mulheres, todo mundo conhece uma mulher que vive dentro de um relacionamento que não a agrada ou que não a faz bem, mas que ela não consegue terminar por diversos motivos. Dentro do feminismo discute-se com frequência sobre todos os tipos abusos que a mulher pode sofrer, abusos sexuais, físicos e psicológicos vindo de estranhos ou dos próprios companheiros, também fala-se bastante sobre como a mulher é sempre culpada independente da situação.
Só que as vezes sinto que essas discussões ficam apenas na teoria, nos grupos de Internet e nas frases feitas das redes sociais. Falamos sobre tudo isso e ao mesmo tempo ainda somos, as vezes inconscientemente, capazes de proteger homens em segundos e de rebaixar mulheres na mesma velocidade.
Mesmo nos dizendo feministas, perdoamos com facilidade e não questionamos o papai que foi abusador com a mamãe durante toda vida usando a desculpa de que ele foi um bom pai, e massacramos terrivelmente uma mulher, principalmente se mãe, se ela for infiel ou deixar os filhos. Tratamos como uma zero a esquerda uma mulher porque ela permite que um homem dite o que ela deve fazer e como uma pessoa sem caráter ou intelectualidade uma mulher que se hiperssexualiza. Ainda enchemos os olhos de lágrimas com a história do pai que criou cinco filhos sozinho depois de ser abandonado pela companheira, enquanto esculachamos uma mãe que arranjou um novo e estranho companheiro, mesmo que ela tenha passado toda a vida dando duro pelos filhos. Nós julgamos mulheres com facilidade, nos falta empatia, nos falta sororidade, nos falta compreensão com aquelas que não seguem nossos padrões de conduta, enquanto com os homens, as situações são compreendidas, superadas ou ignoradas. E diante de todo esse julgamento, ainda exigimos que as mulheres sejam fortes.
Desconfiamos e condenamos a mulher que deixa seu psicológico ser abalado, que toma atitudes erradas levada por um desespero desenganado, que assume o papel imoral sem ao menos resistir, que não é digna, que não é forte, que não é guerreira, que não aguenta as pancadas de pé. Queremos que toda mulher que sofre seja resiliente, suporte, não saia da linha. Mantemos, sem perceber, a ideia machista de “mulher de verdade” porque consideramos que o contrário foge dos padrões aceitos e/ou dos nossos valores morais. Nós reproduzimos machismo, nós coroamos um papel tão difícil que é o papel da resiliência.
Quando me pergunto para quem e para que serve meu feminismo, quero ter certeza de que ele também é sobre mulheres fragilizadas, que vivem em situações vulneráveis, com realidades diferentes da minha, quero ter certeza que ele vai servir  para que eu seja alguém que tenta ao menos compreender aquela que é julgada e condenada por todo o resto. Eu não entendo muitas atitudes de certas mulheres porque, na maioria da vezes, não são e nem seriam espelhos das minhas, mas a última coisa que eu farei, sendo eu feminista, é julgá-las como loucas, fracas, putas, safadas, sem-vergonhas ou imorais. A última coisa que eu farei é exigir força de alguém que eu não entendo, em uma situação que eu não vivo, ainda mais sendo esta pessoa uma mulher. Se não eu, feminista, quem a olhará com outros olhos? Não adianta eu dizer que minha luta é também pelas mulheres negras e periféricas para parecer altruísta, se muitas dessas mulheres estão em situação de vulnerabilidade e se portando de maneira que eu não aprovaria no meu cotidiano e eu sequer penso nisso. Não adianta eu botar cartaz no Facebook dizendo que “Somos todas putas”, se julgo como puta aquela que não faz o que eu acho que deveria ser feito, se, no fundo, ainda me utilizo desse conceito machista que ironicamente incorporo. Não adianta eu dizer que sei e levantar bandeira, se eu mesma não aplico o que digo.
Ainda cometo muitos erros, essa reflexão me atinge diretamente, todas nós estamos em processo de desconstrução e tentando levar essas ideias a frente, porém me questiono o tempo todo e vou seguir me questionando para que meu feminismo vá além do meu umbigo, para que eu lute, antes de qualquer coisa, pela libertação da mulher, a verdadeira libertação de toda e qualquer mulher.

sexta-feira, 27 de novembro de 2015

#meuamigosecreto

#Meuamigosecreto me dizia que a melhor pessoa pra eu perder a minha virgindade era ele, que a gente confiava um no outro, que a gente era amigo e que ele tinha um carinho enorme por mim. Eu ia me apaixonando por aquelas palavras e pelo jogo que fazia eu me sentir desejada. Logo eu, que tinha passado por um processo complicado na adolescência de ter sido sempre preterida, tinha me tornado o patinho feio que virou cisne e agora alguém me queria de um jeito mais profundo, mais especial. Mal sabia eu que o interesse dele e da maioria dos meninos por mim dali pra frente seria sempre um único: sexual.
A história era ainda mais complicada, porque uma grande amiga também era apaixonada por esse #amigosecreto e, claro, apesar de negar, ele também era apaixonado por ela, toda linda, toda pura, toda branquinha, moça de família. Eu, a neguinha cheia de fogo, era só para satisfazer o seu instinto as escondidas.
Eu sempre falava que nada poderia acontecer entre a gente por conta desse envolvimento entre ele e minha amiga, mas ele sempre me dizia que ela era passado, além de reforçar um ódio recheado de julgamentos machistas sobre ela. Então, aos poucos, fui cedendo, nunca dizendo pra ele e nem pra ninguém o que eu sentia, porque de alguma forma eu sabia qual era o meu lugar e a minha condição. Ainda fiz isso em diversos relacionamentos mais tarde.
Uns dias depois de uma primeira tentativa de sexo com ele, eu fui a uma festa e o vi desfilando de mãos dadas com outra garota, mais uma dessas que preenchem as exigências de “moça para namorar”. Chorei no meio da festa, bebi tudo que podia, encontrei um amigo dele e foi naquele dia, com esse sujeito, que perdi a minha virgindade em um motel barato qualquer.
Não me lembro até hoje de praticamente nada. Me senti péssima e acabei contando pra ele em um outro dia, foi quando ele me levou embora de sua casa e me tratou como se eu estivesse suja. A coisa só piorou depois daí, porque agora ele e os amigos tinham aval para me taxarem de biscate, de fácil e para ficarem me ridicularizando nos lugares. Eu me sentia cada vez mais perdida.
Quando enfim me libertei de tudo, ele começou a namorar a minha amiga. Eu tomei coragem e contei o que havia acontecido a ela. Um tempo depois ele apareceu, tentou fazer com que eu me sentisse culpada, que eu sentisse vergonha por ter traído uma amiga, que eu sentisse vergonha por ter exposto algo que era para ter ficado escondido, me julgou, me humilhou, fez com que eu me sentisse a pior pessoa do mundo.
A minha amiga também achou que eu fosse culpada, brigou comigo e eu fiquei sozinha. Todos os meus amigos passaram a achar que eu não era alguém confiável, até eu mesma passei a me ver assim e levei meses para desfazer esse pensamento na cabeça das pessoas e na minha própria cabeça.
Eu já superei tudo isso, eu já perdoei essa pessoa, apesar de provavelmente ele ainda se sentir isento de culpa em toda essa história, mas, mesmo assim, eu não queria ter feito esse relato, porque ainda me dói de alguma forma. Eu ainda fico tensa quando as pessoas tocam no assunto de virgindade, porque tudo isso volta a minha cabeça e eu nunca sei o que falar. Só que todas nós resolvemos juntas colocar essas coisas que doem pra fora de uma vez por todas, para que os caras se toquem, para que as meninas mais novas não passem por isso, para que as pessoas percebam como o machismo está impregnado em nós, para que repensemos a criação de nossos filhos, a educação das nossas crianças. E sim, histórias e comportamentos como esses se tratam de casos de machismo e não de um “rolo” como costumam chamar por aí. Viver em uma sociedade machista é achar que as mulheres são sempre culpadas. Culpadas por se relacionarem com quem bem entendem, culpadas por aceitarem abusos, culpadas por serem maltratadas.
As meninas além de ter uma relação distante com seus corpos e a sua sexualidade e terem, em sua maioria, péssimos inícios de vida sexual, passam por traumas durante a vida inteira com sua aparência e em situações que comprometem seu psicológico. Entram em relacionamentos abusivos e são violentadas de várias maneiras, enquanto os garotos seguem a vida sem ser dar conta disso.
A situação das meninas negras é ainda pior, porque enfrentamos dupla opressão, a do machismo e a do racismo, nós ainda somos vistas como a diversão casual, como o objeto sexual, como a cor do pecado, como a imagem do desejo que não deixa o homem em paz, como se a gente não tivesse nenhum tipo de sentimento, a gente é apenas carne e é a carne mais barata do mercado. Muitas vezes, desestabilizadas emocionalmente, a gente assume mesmo esse papel.

Que, no mínimo, antes de ficar bostejando sobre essa hashtag, parem para refletir como nós mulheres estamos cansadas de desde a infância sermos subjulgadas e abusadas, como nós estamos saturadas e que isso não se trata de uma onda, de uma moda, de uma loucura que viralizou, de distribuição gratuita de ódio (até porque de gratuito isso não tem nada). Somos uma nova geração de mulheres que resolveu cobrar isso por nós e por quem nunca teve voz. Que isso sirva pra pensarmos juntos em como podemos mudar essa situação.

segunda-feira, 19 de outubro de 2015

A neguinha metida

Se tem uma coisa a que sempre vou ser forçadamente encaixada é ao famigerado rótulo de “neguinha metida”. Um rótulo que para a sociedade sempre cabe a alguém como eu. E por que?
Simples, estou fora do lugar que me cabe. Pense, onde estão a maioria das mulheres da sociedade? Ou melhor, onde estão a maioria das mulheres negras? Quais são seus cargos? Quais são suas formações? Quais são seus lugares em ambientes políticos? Qual a voz e  atuação das mulheres negras na nossa pátria amada?
Sem hipocrisia, podemos dizer, quando pensamos na figura da mulher negra em nossas mentes, qual é a primeira representação? A de uma mulher independente, letrada, atuando em algum cargo de poder ou a de uma mulher com poucas condições financeiras, mãe, ocupando cargos subalternos e que viveu com pouco ou nenhum acesso à educação? Posso responder, eu mesma, que sou uma mulher negra, por muitos anos a representação que vinha a minha mente era a última.
Simplesmente porque pra mim as mulheres negras não estavam em nenhum desses lugares em que as pessoas estão em destaque e são protagonistas: cargos de chefia, cargos políticos, jornais, livros, televisão, capas de revistas, a frente de grupos musicais, a frente de movimentos sociais. Eu tinha conhecimento de poucas ou nenhuma mulher negra transitando por esses espaços, e
 foi assim durante a vida toda. 
No meu caso, tive o privilégio de ter uma família que mesmo sem entender muito do que eu pretendia e insistentemente buscava conhecer, sobre meus livros, meus posicionamentos políticos, as músicas que eu ouvia, mesmo sem esse conhecimento, todos me apoiaram e se esforçaram para que eu tivesse acesso ao que tinha de melhor.
Eu estive numa escola particular no Ensino Médio e quantas meninas iguais a mim estavam lá? Duas? Em uma escola de 200 alunos… Eu era a única adolescente sem computador em casa, sem acesso a Internet, lembro que meus colegas me zombavam porque eu achava o máximo alguns tipos de redes sociais no laboratório da escola e hoje em dia quando me veem com uma desenvoltura escrita muito melhor do que a deles, provavelmente o que pensam é: "olha essa neguinha, que metida".
E aí cheguei à universidade pública, quantas mulheres negras estavam lá? Pouquíssimas. Quantas professoras negras eu tive? Nenhuma. Não acho que isso seja uma coincidência e fico intrigada com quem acha, ou é muita inocência ou muita desonestidade.
A faculdade de Letras me deu uma bagagem ótima, abriu meus horizontes e me auxiliou numa das coisas que mais gosto de fazer, escrever. Melhorei consideravelmente minhas habilidades na escrita. Escrevendo e lendo textos acadêmicos, conhecendo e destrinchando gêneros textuais, obviamente, hoje falo melhor e escrevo melhor do que antes. Não digo melhor, mas de uma forma diferente.

Nunca vou me esquecer quando no meio de uma discussão com a minha mãe, ela respondeu revoltada: “E NEM ADIANTA COMEÇAR A FALAR DIFÍCIL!” Fiquei indignada! Não achava que eu estava “falando difícil”, acontece que eu havia adquirido um letramento que minha própria família não dominava, e eu não fazer mais parte da forma de se expressar daqueles que me criaram acabou dando ainda mais margem para quê? Para que eu fosse a “neguinha metida”.
Independente da minha formação, seria considerada assim de qualquer forma. Qualquer preta que saia do que lhe foi condicionado, que é, mesmo sendo oprimida, calar e, mesmo com raiva, servir, já é vista com maus olhos.
A partir do conhecimento que adquiri, resolvi que iria escrever não só para mim, mas para outras pessoas, expressar minhas opiniões sobre as questões raciais e o machismo, coisas que cada vez me incomodavam mais e que faziam parte da minha vivência. Escrevi nas redes sociais e muitas pessoas, principalmente mulheres, gostaram do escrevi e refletiram com as minhas palavras, mas, ao mesmo tempo, muita gente só pensava: "O que essa menina quer? Ela se acha a dona da verdade com essas opiniões de merda? Quem ela pensa que é para expressar o que bem entende? Quem liga para o que ela pensa? Af! Que neguinha metida!"
Então, eu fui escrever crônicas com as mesmas temáticas no jornal da cidade e o leque de julgamento se abriu. Claramente ninguém pensa que talvez eu seja a primeira mulher negra de vinte e cinco anos expressando esse tipo de opinião no jornal de um município tão conservador. Não que isso me faça melhor que ninguém, mas se qualquer outra mulher nas mesmas condições que as minhas estivesse lá, sinceramente e independente de opiniões preconceituosas, eu me sentiria satisfeita.
No ambiente de trabalho também fica evidente pra mim a condição da mulher negra, em todos os lugares em que trabalhei, instituições com 50, 100, 200 funcionários, cinco ou três eram negros, duas ou uma, eram mulheres negras, a maioria em cargos subalternos.
Isso quer dizer que acho que estar em cargos subalternos não seja uma posição digna? Não, muito pelo contrário, foram nesses cargos que milhares de mulheres negras foram arrimo de família e criaram seus filhos com dignidade, eu mesma sou fruto disso. Só acho que já chega de estarmos somente lá. Passamos anos construindo e recebendo nada ou quantias mínimas como recompensa de nossos esforços. Hoje deveríamos não só construir, mas supervisionar, gerenciar. Precisamos de oportunidades iguais.
E isso quer dizer que os gestores das empresas são racistas? Talvez, mas geralmente mulheres negras não tem oportunidades de se qualificar para certos cargos e, então, acabam ocupando sempre os mesmos. Somos empregadas domésticas, faxineiras, babás. Estamos lá cuidando da casa de outras pessoas e mal frequentando as nossas, cuidando dos filhos dos outros e pouco participando da educação dos nossos. Somos socialmente, culturalmente e economicamente levadas a esses cargos e condições.
Muita gente não dá a mínima para essa situação, não reconhece os próprios privilégios e fala sobre o mito da meritocracia e um tal de esforço pessoal que só cabe na realidade do próprio umbigo. Só que mais engraçado que isso, é que tem quem se diga indignado com a situação do povo negro no Brasil e em especial das mulheres trabalhadoras negras, mas quando uma mulher negra ascende socialmente, são os primeiros a apontá-la e a chamá-la do que? De neguinha metida. A neguinha que esqueceu as raízes, que se acha muito esperta, que não representa, que ficou muito radical, que anda falando demais.
O talento da mulher negra é sempre olhado como coisa de segunda mão, assim como nossa própria existência, nosso talento é rebaixado. Sempre rola uma falsa benevolência e elogios forçados que disfarçam o ar de superioridade. Sempre que penso sobre isso me lembro de uma reflexão que li sobre um trecho de "Quarto de Despejo" em que Carolina Maria de Jesus escreveu:


Comecei a catar papel. Subi a rua de Tiradentes, cumprimentei as senhoras que conheço. A dona da tinturaria disse:
– Coitada! Ela é boazinha…
Fiquei repetindo no pensamento: “Ela é boazinha!”

Carolina Maria de Jesus, uma artista de talento imensurável e produção intensa, era grandiosa e inteligente, porém mulher, negra e periférica. Estas últimas condições a faziam sempre, independente do que fosse capaz em sua intimidade, ser olhada com aquele olhar de coitadismo... A necessidade de comentar "Ela é a boazinha", como se pra justificar sua miserável existência no mundo, demonstram qual é a visão que as pessoas tinham e ainda têm sobre a mulher negra. 
Quem entenderá nosso valor? Quem admitirá que somos capazes? Alguns até admitem, mas sempre arranjam uma desculpa, uma oportunidade que nos é dada, um mentor... Ainda nos surgem esses disfarces de Princesa Isabel. Ainda não podemos ser donas de nós mesmas.
Com isso, também me vem a cabeça uma reclamação recorrente de uma grande amiga, assim como Carolina Maria de Jesus, mulher, negra e periférica. Apesar do imenso talento dela, sempre a apresentavam e a tratavam com aquele esteriótipo de pessoa em situação fragilizada. Sempre a ofereciam ajudas financeiras, das quais muitas vezes ela nem havia solicitado, não pelo seu trabalho, mas porque, coitada, ela precisava. Isso a incomodava muito e incomoda a todas nós que temos que provar a todo momento o que realmente somos para o mundo e, ainda assim, sermos desvalorizadas. Porque nós podemos ser talentosas, mas nem tanto, podemos ser inteligentes, mas nem tanto, podemos ter a palavra, mas não sermos protagonistas.
No meu caso, o que percebo é que pode até ser que admitam que eu escrevo bem, mas eu me acho demais. Pode até ser que eu tenha opiniões contundentes, mas eu sou muito arrogante. Esses desenhos que eu faço… Hummm… Eu nem sei o que estou fazendo direito! Enfim, não pertenço a lugar nenhum, nem a cultura de rua, nem a cultura acadêmica, minha postura não me permite entrar em nenhum dos lugares, pra um sou demais, pro outro sou de menos, no final das contas eu só sou uma neguinha metida.
Quando falamos de cultura e arte, quantos nomes de mulheres negras estão nos clássicos da literatura brasileira? Nos nomes famosos de artistas visuais? Quantas são as negras artistas prestigiadas pelo grande público? Quais são os talentos artísticos das mulheres negras? Nós não as conhecemos e quando elas surgem nós a rechaçamos, porque elas estão em lugares em que nunca as quisemos. Mulher não sabe, mulher negra sabe menos ainda. 
O machismo não permite que a gente se imponha, o racismo não permite que a gente tenha conhecimento e autoestima para se impor, juntos são os maiores inimigos da mulher negra, que continua sem lugar na História.
Acho bonito a ideia de que paremos de falar de racismo e machismo e comecemos a falar de sentimentos, mas para isso a realidade precisa ser confrontada e discutida. A realidade destroça todos os dias os sentimentos de muitas mulheres negras.
Criei uma casca para não ser atingida quando me dizem ou me olham com o olhar de “neguinha metida”. Só que também me permito fraquejar, não sou obrigada a ser forte o tempo inteiro. Confesso que muitas vezes me autoboicoto, sinto que não sou capaz, acho que a qualquer momento vão descobrir que eu sou uma farsa. Só que sempre volto e percebo que eu preciso estar ali, preciso ser a referência que eu nunca tive pra outras meninas e preciso continuar buscando essas referências em textos, amizades, movimentos sociais, mídia, na minha própria arte, nos meus próprios desabafos. Resolvi lutar ao lado de várias neguinhas metidas por aí, e o que posso concluir é: nós vamos mudar a porra toda. Gostem eles ou não.

segunda-feira, 5 de outubro de 2015

Lembra quando sua mãe disse
Que nossa casa parecia de hippie
Quem me dera
Não achar que tenho que trabalhar
Nessas coisas com ponto pra marcar
E desapegar
De toda essa balela
Apesar de tudo
A gente ainda insiste em achar
Quando acorda pra trampar
Que uma vida melhor
Nos espera
Mas eu até entendo ela
Sua mãe falou foi dos incensos, dos vinis
E do nosso desapego
Com a vassoura
A gente nunca limpa essa casa
Não faz nada direito
E eu faço comida sem roupa
Você
Como eu
Desajeitado
Sempre está do lado
Pelado
Lavando a louça
Os documentários
Que assistimos
São necessários pra saber
Ou pelos menos tentar saber
O que viemos fazer
No mundo
Talvez seja meter
Porque  é isso que a gente sempre faz
No sofá
Depois que acaba de assistir tudo
E com toda calma e paciência
Na estante de livros
Ao lado de garrafas de cerveja vazias
O Buda observa mudo
Diferente dele e de você
Nunca consigo ficar calada
E a vida segue sossegada
A gente briga e ri por nada
Paz , amor e caos
Pros jovens casais
Com muito amor e nenhum puto