quinta-feira, 29 de setembro de 2016

Meu olho

Tenho um terceiro olho. Ele fica do lado de dentro. Diferente dos externos, não disfarça o que vê. E diz, meu olho que sente e não finge, também diz. É ele que te escreve, é ele que te fala. Sensível demais para o silêncio, meu terceiro olho grita. Meu terceiro olho existe. Meu terceiro olho é de fato. Não está nas costas, nuca, testa ou antebraço. Não se pode ver esse meu olho extra. Estrangeiro à vida externa, enxerga só o que me toca sem o tato. Nunca se cala... Aperta as pálpebras, depois arregala e chora sem vergonha. Escorre lágrimas de tristeza, felicidade, carência, carinho, tesão. O olho mágico, bonito e confuso, se deságua no meu mundo caleidoscópico, se perde em cores, dores, amores e ópio. Meu terceiro, bastardo olho, faz cegamente poesia o tempo todo.

sexta-feira, 23 de setembro de 2016

Ele me disse satélite natural da terra
Sou
Não que seja ele quem me ilumina
Existem tantos sóis por aí...
Todos grudados ao meu lado
Enquanto permaneço indecifrável
No topo das cabeças
Esperando que realmente acordem
E que um dia cansem
De toda vez me alcançar
Cravar sua bandeira
E comemorar me usando
Como terra de desafios
Sou lisa aos olhos que me olham
Mas se realmente curiosos
Enxergam minhas crateras
Minhas sinuosas linhas
O que faço aqui
Também não sei
Se cresço, se minguo
Se encho de luz o desespero
Do ser que precisa de qualquer explicação
Para cada rumo de sua vida
Nem eu sei do meu mistério
Só aceito minha condição
Que os lobos uivem para mim
Que as bruxas dancem ao meu redor
Que os apaixonados me façam motivo
Sigo uma reticência no céu
Um solitária perdida

quarta-feira, 21 de setembro de 2016

A culpa não é sua

Eu preciso falar. Porque há dez anos eu guardo isso. Há dez anos eu nunca soube o que fazer, nem o que dizer.
Só que depois de apontar o dedo na sua cara e te dizer que a culpa é sua, ver você não esboçar nenhum tipo de reação me doeu mais que o meu sofrimento silencioso durante dez longos anos. Ver seus olhos paralisados e secos olhando pra mim enquanto eu externalizava toda minha raiva, me deu a dimensão do tamanho do seu desespero. Seu desespero é seco, é solitário, foi engolido e domado pra nunca mais sair daí. E isso também me desespera.
Você transformou toda sua dor em uma pedra imensa que você carrega sem reclamar. Por que? Eu grito há dez anos dentro de mim: POR QUE? Me dói não saber porque. E fica fácil dizer que a culpa é sua, porque é difícil admitir que não é. Nunca foi. A culpa não é sua. Não foi sua... Nao foi sua naquele dia em que eu entendi o que te machucava, não foi sua em todos os momentos constantes de tensão, de espera pela tensão, de resistência da tensão, não foi sua nos dias sistemáticos de abuso físico e psicológico, não foi sua nas descobertas ruins, não foi sua em cada humilhação, não foi sua nas dores físicas que tem sido geradas pelo estresse absoluto de viver em um cárcere de sentimento, dependência e submissão. A culpa nunca foi e nem será sua.
Só que fica difícil pra mim. Lembro que quando eu tinha um sete anos, você me disse que queria ser como eu. Eu nunca esqueci disso... Era pra você ser minha fortaleza, mas você é que me achava forte. O caso é que me fiz forte quando notei que faltava algo dentro de você, quando aos cinco anos você me disse que tinha saudade da sua mãe e eu respondi: mas e eu?, e você respondeu que um dia eu iria entender, e eu entendi, porque também sinto saudade da minha.
É difícil, porque eu, dentro desse inexplicável condicionamento a suportar com doçura, a encarar com coragem, eu pude suportar tudo que te feriu até hoje, mas talvez a pequena não suporte. Por favor, não a transforme na sua dor. Você não vê? Você não pode sentir que todo grito, todo berro, toda lágrima e toda rispidez dela são um pedido de socorro? Ela só quer ser amada. Mesmo em meio ao caos uma criança só precisa ser amada. Eu quero pra ela todo amor que eu tive, e se o amor que eu tive foi infinito, por que o dela não pode ser? Pare de mostrar pra ela seus espinhos, você ainda é uma flor. Deixa ela te tocar, deixa ela ver suas pétalas, nós duas somos tudo o que mais te contempla no mundo.
E eu ainda estou aqui. E não, eu não acho que a culpa seja sua. Se permita a enxergar de outro jeito, se permita a lembrar de quem você era, se permita a pensar no que você ainda por ser.
Por você, por nós.
Você sempre foi tudo que eu mais admirei, eu contava pra todos os coleguinhas que sua risada era a mais alta do bairro, porque eu amava ouvir você rir. Não ouço mais, não ouço mais porque não acontece com frequência, não ouço mais porque com dezesseis anos eu me afastei pra não ter que assistir de camarote você morrer aos poucos sem saber o quão importante e forte você é. Só que eu continuo aqui, eu estive aqui nesses dez anos esperando o grande dia que esses seus olhos secos iriam brilhar de novo e você iria segurar na minha mão e voltar pra superfície. Você é muito mais que isso, muito mais. Sempre foi. Você não precisa disso, ninguém precisa disso, nenhuma mulher precisa disso. Eu só queria dizer que eu estou aqui, pode me chamar quando quiser, nós vamos viver no mundo que eu passei a infância inteira sonhando, eu, você e algo mais em que naquela idade eu não sabia o que era. Talvez fosse o amor, talvez fosse o amor personificado. Eu, você e ela.

quinta-feira, 1 de setembro de 2016

doce

menina, você é doce. doce tipo doce mesmo. aquele doce suave, macio, bom de sentir o gosto... assim, tipo um veludo. doce de avelã. esse seu ar otimista faz a combinação perfeita com o teu sorriso calmo, fica tão... doce. olho pra você e vejo isso. só que quando toquei meus lábios nos seus, sei lá, já não senti mais isso. não é doce. aí ja não é veludo. aí é áspero, certeiro, aí já é rasgo, não é remendo, é corte, não curativo. seu beijo invande, você pede licença. timidamente ousada. eu pensei em você várias vezes no outro dia. você é assim, como o que você disse sobre o cantor brilhante... pode mudar o ambiente só com o som da sua voz.

sexta-feira, 19 de agosto de 2016

Sem Ana, Blues

Caio F. Abreu

Quando Ana me deixou - essa frase ficou na minha cabeça, de dois jeitos - e depois que Ana me deixou. Sei que não é exatamente uma frase, só um começo de frase, mas foi o que ficou na minha cabeça. Eu pensava assim: quando Ana me deixou - e essa não-continuação era a única espécie de não continuação que vinha. Entre aquele quando e aquele depois, não havia nada mais na minha cabeça nem na minha vida além do espaço em branco deixado pela ausência de Ana, embora eu pudesse preenchê-lo - esse espaço branco sem Ana - de muitas formas, tantas quantas quisesse, com palavras ou ações. Ou não-palavras e não-ações, porque o silêncio e a imobilidade foram dois dos jeitos menos dolorosos que encontrei, naquele tempo, para ocupar meus dias, meu apartamento, minha cama, meus passeios, meus jantares, meus pensamentos, minhas trepadas e todas essas outras coisas que formam uma vida com ou sem alguém como Ana dentro dela.

Quando Ana me deixou, eu fiquei muito tempo parado na sala do apartamento, cerca de oito horas da noite, com o bilhete dela nas mãos. No horário de verão, pela janela aberta da sala, à luz das oito horas da noite podiam-se ainda ver uns restos dourados e vermelho deixados pelo sol atrás dos edifícios, nos lados de Pinheiros. Eu fiquei muito tempo parado no meio da sala do apartamento, o último bilhete de Ana nas mãos, olhando pela janela os dourados e o vermelho do céu. E lembro que pensei agora o telefone vai tocar, e o telefone não tocou, e depois de algum tempo em que o telefone não tocou, e podia ser Lucinha da agência ou Paulo do cineclube ou Nelson de Paris ou minha mãe do Sul, convidando para jantar, para cheirar pó, para ver Nastassia Kinski nua, pergunrando que tempo fazia ou qualquer coisa assim, então pensei agora a campainha vai tocar. Podia ser o porteiro entregando alguma dessas criancinhas meio monstros de edifício, que adoram apertar as campainhas alheias, depois sair correndo. Ou simples engano, podia ser. Mas a campainha também não tocou, e eu continuei por muito tempo sem salvação parado ali no centro da sala que começava a ficar azulada pela noite, feito o interior de um aquário, o bilhete de Ana nas mãos, sem fazer absolutamente nada além de respirar.

Depois que Ana me deixou - não naquele momento exato em que estou ali parado, porque aquele momento exato é o momento-quando, não o momento-depois, e no momento-quando não acontece nada dentro dele, somente a ausência da Ana, igual a uma bolha de sabão redonda, luminosa, suspensa no ar, bem no centro da sala do apartamento, e dentro dessa bolha é que estou parado também, suspenso também, mas não luminoso, ao contrário, opaco, fosco, sem brilho e ainda vestido com um dos ternos que uso para trabalhar, apenas o nó da gravata levemente afrouxado, porque é começo de verão e o suor que escorre pelo meu corpo começa a molhar as mãos e a dissolver a tinta das letras no bilhete de Ana - depois que Ana me deixou, como ia dizendo, dei para beber, como é de praxe.

De todos aqueles dias seguintes, só guardei três gostos na boca - de vodca, de lágrima e de café. O de vodca, sem água nem limão ou suco de laranja, vodca pura, transparente, meio viscosa, durante as noites em que chegava em casa e, sem Ana, sentava no sofá para beber no último copo de cristal que sobrara de uma briga. O gosto de lágrimas chegava nas madrugadas, quando conseguia me arrastar da sala para o quarto e me jogava na cama grande, sem Ana, cujos lençóis não troquei durante muito tempo porque ainda guardavam o cheiro dela, e então me batia e gemia arranhando as paredes com as unhas, abraçava os travesseiros como se fossem o corpo dela, e chorava e chorava e chorava até dormir sonos de pedra sem sonhos. O gosto de café sem açúcar acompanhava manhãs de ressaca e tardes na agência, entre textos de publicidade e sustos a cada vez que o telefone tocava. Porque no meio dos restos dos gostos de vodca, lágrima e café, entre as pontadas na cabeça, o nojo da boca do estômago e os olhos inchados, principalmente às sextas-feiras, pouco antes de desabarem sobre mim aqueles sábados e domingos nunca mais com Ana, vinha a certeza de que, de repente, bem normal, alguém diria telefone-para-você e do outro lado da linha aquela voz conhecida diria sinto-falta-quero-voltar. Isso nunca aconteceu.

O que começou a acontecer, no meio daquele ciclo do gosto de vodca, lágrima e café, foi mesmo o gosto de vômito na minha boca. Porque no meio daquele momento entre a vodca e a lágrima, em que me arrastava da sala para o quarto, acontecia às vezes de o pequeno corredor do apartamento parecer enorme como o de um transatlântico em plena tempestade. Entre a sala e o quarto, em plena tempestade, oscilando no interior do transatlântico, eu não conseguia evitar de parar à porta do banheiro, no pequeno corredor que parecia enorme. Eu me ajoelhava com cuidado no chão, me abraçava na privada de louça amarela com muito cuidado, com tanto cuidado como se abraçasse o corpo ainda presente de Ana, guardava prudente no bolso os óculos redondos de armação vermelhinha, enfiava devagar a ponta do dedo indicador cada vez mais fundo na garganta, até que quase toda a vodca, junto com uns restos de sanduíches que comera durante o dia, porque não conseguia engolir quase mais nada, naqueles dias, e o gosto dos muitos cigarros se derramassem misturados pela boca dentro do vaso de louça amarela que não era o corpo de Ana. Vomitava e vomitava de madrugada, abandonado no meio do deserto como um santo que Deus largou em plena penitência - e só sabia perguntar por que, por que, por que, meu Deus, me abandonaste? Nunca ouvi a resposta.

Um pouco depois desses dias que não consigo recordar direito - nem como foram, nem quantos foram, porque deles só ficou aquele gosto de vômito, misturados, no final daquela fase, ao gosto das pizzas, que costumava perdir por telefone, principalmente nos fins-de-semana, e que amanheciam abandonadas na mesa da sala aos sábados, domingos e segundas, entre cinzeiros cheios e guardanapos onde eu não conseguia decifrar as frases que escrevera na noite anterior, e provavelmente diziam banalidades, como volta-para-mim-Ana ou eu-não-consigo-viver-sem-você, palavras meio derretidas pelas manchas do vinho, pela gordura das pizzas -, depois daqueles dias começou o tempo em que eu queria matar Ana dentro de tudo aquilo que era eu, e que incluía aquela cama, aquele quarto, aquela sala, aquela mesa, aquele apartamento, aquela vida que tinha se tornado a minha depois que Ana me deixou.

Mandei para a lavanderia os lençóis verde-clarinhos que ainda guardavam o cheiro de Ana - e seria cruel demais para mim lembrar agora que cheiro era esse, aquele, bem na curva onde o pescoço se transforma em ombro, um lugar onde o cheiro de nenhuma pessoa é igual ao cheiro de outra pessoa -, mudei os móveis de lugar, comprei um Kutka e um Gregório, um forno microondas, fitas de vídeo, duas dúzias de copos de cristal, e comecei a trazer outras mulheres para casa. Mulheres que não eram Ana, mulheres que jamais poderiam ser Ana, mulheres que não tinham nem teriam nada a ver com Ana. Se Ana tinha os seios pequenos e duros, eu as escolhia pelos seios grandes e moles, se Ana tinha os cabelos quase louros, eu as trazia de cabelos pretos, se Ana tivesse a voz rouca eu a selecionava pelas vozes estridentes que gemiam coisas vulgares quando estávamos trepando, bem diversas das que Ana dizia ou não dizia, ela nunca dizia nada além de amor-amor ou meu-menino-querido, passando dos dedos da mão direita na minha nuca e os dedos da mão esquerda pelas minhas costas. Vieram Gina, a das calcinhas pretas, e Lilian, a dos olhos verdes frios, e Beth, das coxas grossas e pés gelados, e Marilene, que fumava demais e tinha um filho, e Mariko, a nissei que queria ser loura, e também Marta, Luiza, Creuza, Júlia, Débora, Vivian, Paula, Teresa, Luciana, Solange, Maristela, Adriana, Vera, Silvia, Neusa, Denise, Karina, Cristina, Marcia, Nadir, Aline e mais de 15 Marias, e uma por uma das garotas ousadas da Rua Augusta, com suas botinhas brancas e minissaia de couro, e destas moças que anunciam especialidades nos jornais. Eu acho que já vim aqui uma vez, alguma dizia, e eu falava não lembro, pode ser, esperando que tirasse a roupa enquanto eu bebia um pouco mais para depois tentar entrar nela, mas meu pau quase nunca obedecia, então eu afundava a cabeça nos seus peitos e choramingava babando sabe, depois que Ana me deixou eu nunca mais, e mesmo quando meu pau finalmente endurecia, depois que eu conseguia gozar seco ardido dentro dela, me enxugar com alguma toalha e expulsá-la com um cheque cinco estrelas, sem cruzar ¿ então eu me jogava de bruços na cama e pedia perdão à Ana por traí-la assim, com aquelas vagabundas. Trair Ana, que me abandonara, doía mais que ela ter me abandonado, sem se importar que eu naufragasse toda noite no enorme corredor de transatlântico daquele apartamento em plena tempestade, sem salva-vidas.

Depois que Ana me deixou, muitos meses depois, veio o ciclo das anunciações, do I Ching, dos búzios, cartas de Tarot, pêndulos, vidências, números e axés ¿ ela volta, garantiam, mas ela não voltava - e veio então o ciclo das terapias de grupo, dos psicodramas, dos sonhos junguianos, workshops transacionais, e veio ainda o ciclo da humildade, com promessas à Santo Antônio, velas de sete dias, novenas de Santa Rita, donativos para as pobres criancinhas e velhinhos desamparados, e veio depois o ciclo do novo corte de cabelos, da outra armação para os óculos, guarda-roupa mais jovem, Zoomp, Mister Wonderful, musculação, alongamento, yoga, natação, tai-chi, halteres, cooper, e fui ficando tão bonito e renovado e superado e liberado e esquecido dos tempos em que Ana ainda não tinha me deixado que permiti, então, que viesse também o ciclo dos fins de semana em Búzios, Guarajá ou Monte Verde e de repente quem sabe Carla, mulher de Vicente, tão compreensiva e madura, inesperadamente, Mariana, irmã de Vicente, transponível e natural em seu fio dental metálico, por que não, afinal, o próprio Vicente, tão solícito na maneira como colocava pedras de gelo no meu escocês ou batia outra generosa carreira sobre a pedra de ágata, encostando levemente sua musculosa coxa queimada de sol e o windsurf na minha musculosa coxa também queimada de sol e windsurf. Passou-se tanto tempo depois que Ana me deixou, e eu sobrevivi, que o mundo foi se tornando ao poucos um enorme leque escancarado de mil possibilidades além de Ana. Ah esse mundo de agora, assim tão cheio de mulheres e homens lindos e sedutores interessantes e interessados em mim, que aprendi o jeito de também ser lindo, depois de todos os exercícios para esquecer Ana, e também posso ser sedutor com aquele charme todo especial de homem-quase-maduro-que-já-foi-marcado-por-um-grande-amor-perdido, embora tenha a delicadeza de jamais tocar no assunto. Porque nunca contei à ninguém de Ana. Nunca ninguém soube de Ana em minha vida. Nunca dividi Ana com ninguém. Nunca ninguém jamais soube de tudo isso ou aquilo que aconteceu quando e depois que Ana me deixou.

Por todas essas coisas, talvez, é que nestas noites de hoje, tanto tempo depois, quando chego do trabalho por volta das oito horas da noite e, no horário de verão, pela janela da sala do apartamento ainda é possível ver restos de dourados e vermelhos por trás dos edifícios de Pinheiros, enquanto recolho os inúmeros recados, convites e propostas da secretária eletrônica, sempre tenho a estranha sensação, embora tudo tenha mudado e eu esteja muito bem agora, de que este dia ainda continua o mesmo, como um relógio enguiçado preso no mesmo momento - aquele. Como se quando Ana me deixou não houvesse depois, e eu permanecesse até hoje aqui parado no meio da sala do apartamento que era o nosso, com o último bilhete dela nas mãos. A gravata levemente afrouxada no pescoço, fazia e faz tanto calor que sinto o suor escorrer pelo corpo todo, descer pelo peito, pelos braços, até chegar aos pulsos e escorregar pela palma das mãos que seguram o último bilhete de Ana, dissolvendo a tinta das letras com que ela compôs palavras que se apagam aos poucos, lavadas pelo suor, mas que não consigo esquecer, por mais que o tempo passe e eu, de qualquer jeito e sem Ana, vá em frente. Palavras que dizem coisas duras, secas, simples, arrevogáveis. Que Ana me deixou, que não vai voltar nunca, que é inútil tentar encontrá-la, e finalmente, por mais que eu me debata, que isso é para sempre. Para sempre então, agora, me sinto uma bolha opaca de sabão, suspensa ali no centro da sala do apartamento, à espera de que entre um vento súbito pela janela aberta para levá-la dali, essa bolha estúpida, ou que alguém espete nela um alfinete, para que de repente estoure nesse ar azulado que mais parece o interior de um aquário, e desapareça sem deixar marcas.

segunda-feira, 15 de agosto de 2016

instinto felino observo em círculos sinto cerro os olhos pressinto caminho na direção sem pressa com pés macios só quando certeira pulo ataco agarro arranho mato e mastigo
não me vê
sou vulto
terrível
mania
de ser
sem rumo
ao invés
do polido
o bruto
confusão
do barulho
eu mudo
se força
e não estoura
eu fujo
se arranha
o meu disco
eu furo
claro
que não
escuro
nunca me dê razão
que eu sumo