quarta-feira, 21 de setembro de 2016

A culpa não é sua

Eu preciso falar. Porque há dez anos eu guardo isso. Há dez anos eu nunca soube o que fazer, nem o que dizer.
Só que depois de apontar o dedo na sua cara e te dizer que a culpa é sua, ver você não esboçar nenhum tipo de reação me doeu mais que o meu sofrimento silencioso durante dez longos anos. Ver seus olhos paralisados e secos olhando pra mim enquanto eu externalizava toda minha raiva, me deu a dimensão do tamanho do seu desespero. Seu desespero é seco, é solitário, foi engolido e domado pra nunca mais sair daí. E isso também me desespera.
Você transformou toda sua dor em uma pedra imensa que você carrega sem reclamar. Por que? Eu grito há dez anos dentro de mim: POR QUE? Me dói não saber porque. E fica fácil dizer que a culpa é sua, porque é difícil admitir que não é. Nunca foi. A culpa não é sua. Não foi sua... Nao foi sua naquele dia em que eu entendi o que te machucava, não foi sua em todos os momentos constantes de tensão, de espera pela tensão, de resistência da tensão, não foi sua nos dias sistemáticos de abuso físico e psicológico, não foi sua nas descobertas ruins, não foi sua em cada humilhação, não foi sua nas dores físicas que tem sido geradas pelo estresse absoluto de viver em um cárcere de sentimento, dependência e submissão. A culpa nunca foi e nem será sua.
Só que fica difícil pra mim. Lembro que quando eu tinha um sete anos, você me disse que queria ser como eu. Eu nunca esqueci disso... Era pra você ser minha fortaleza, mas você é que me achava forte. O caso é que me fiz forte quando notei que faltava algo dentro de você, quando aos cinco anos você me disse que tinha saudade da sua mãe e eu respondi: mas e eu?, e você respondeu que um dia eu iria entender, e eu entendi, porque também sinto saudade da minha.
É difícil, porque eu, dentro desse inexplicável condicionamento a suportar com doçura, a encarar com coragem, eu pude suportar tudo que te feriu até hoje, mas talvez a pequena não suporte. Por favor, não a transforme na sua dor. Você não vê? Você não pode sentir que todo grito, todo berro, toda lágrima e toda rispidez dela são um pedido de socorro? Ela só quer ser amada. Mesmo em meio ao caos uma criança só precisa ser amada. Eu quero pra ela todo amor que eu tive, e se o amor que eu tive foi infinito, por que o dela não pode ser? Pare de mostrar pra ela seus espinhos, você ainda é uma flor. Deixa ela te tocar, deixa ela ver suas pétalas, nós duas somos tudo o que mais te contempla no mundo.
E eu ainda estou aqui. E não, eu não acho que a culpa seja sua. Se permita a enxergar de outro jeito, se permita a lembrar de quem você era, se permita a pensar no que você ainda por ser.
Por você, por nós.
Você sempre foi tudo que eu mais admirei, eu contava pra todos os coleguinhas que sua risada era a mais alta do bairro, porque eu amava ouvir você rir. Não ouço mais, não ouço mais porque não acontece com frequência, não ouço mais porque com dezesseis anos eu me afastei pra não ter que assistir de camarote você morrer aos poucos sem saber o quão importante e forte você é. Só que eu continuo aqui, eu estive aqui nesses dez anos esperando o grande dia que esses seus olhos secos iriam brilhar de novo e você iria segurar na minha mão e voltar pra superfície. Você é muito mais que isso, muito mais. Sempre foi. Você não precisa disso, ninguém precisa disso, nenhuma mulher precisa disso. Eu só queria dizer que eu estou aqui, pode me chamar quando quiser, nós vamos viver no mundo que eu passei a infância inteira sonhando, eu, você e algo mais em que naquela idade eu não sabia o que era. Talvez fosse o amor, talvez fosse o amor personificado. Eu, você e ela.

Um comentário:

Paula Sol disse...

...ao recomeço nas pétalas e serrote nos espinhos... s2