quinta-feira, 9 de junho de 2016

Meus olhos

Eu tenho uma relação de amor e ódio com os meus olhos. Lembro-me de uma vez, quando criança, uma mulher ter se apaixonado por eles na mercearia do bairro. Os dela brilhavam enquanto me dizia encantada que os meus pareciam duas jabuticabas maduras. Eram, de fato, grandes e brilhantes, mas com o passar do tempo, meu nariz, boca e bochechas cresceram tanto que os afundaram para dentro do rosto. Hoje, estão lá, sendo mais como sementes do que como frutos.
Odeio-os porque não tem expressão. Amo olhos expressivos, que sorriem, que desafiam, que seduzem. Meus olhos não se expressam, quando vejo seu reflexo posso enxergar algo como um rio imenso e escuro em que as águas não se mexem e não se pode enxergar o fim. São calmos e sem graça demais e eu prefiro os voluptuosos.
Pelo menos tem mistério, eu acho. Só que rapidamente o mistério se dilui em nada, já que nada representam. Nos retratos são meros coadjuvantes, parecem sempre desajustados, pintados ou sem pintar, tenho a impressão de serem desalinhados, seus cílios são curtos demais, têm bolsas embaixo e uma das pálpebras está cheia de pintas. Meus olhos são feios, coitados. Talvez eu os ame apenas pela estranheza.
Às vezes ficam apertadinhos quando brisados, sonolentos, semi-acordados, ou quando empurrados por um sorriso exageradamente feliz. Continuam inexpressivos, mas os prefiro assim. Meus olhos iludem até a mim mesma, pois nunca posso decifrá-los, estejam eles cerrados ou não.
Raramente se enchem de água, se fecham com dificuldade quando a noite cai e se perdem com facilidade assustadora. Sempre os pego olhando para o nada sem meu comando durante longos períodos, fixados em qualquer horizonte ou desesperadamente errantes. Abertos, mas sem enxergar absolutamente nada. Porém, não posso culpá-los por isso, não faço meditação, durante esses surtos são apenas vítimas da minha leseira crônica.
Além de me causarem estranheza, é certo que meus olhos me incomodam. Sempre quis que fossem outros, talvez mais claros ou mais escuros, tento em vão puxá-los ou levantá-los com pinturas, tento encará-los com carinho, tento fazê-los reagir, mas eles continuam lá, sem nada a me dizer, em silêncio. É também por isso que os amo. É também por isso que os odeio. Nada pode me causar mais paixão e repulsa ao mesmo tempo do que o aquilo que é estranho e desconfortável. Sigo nesse romance mal-resolvido com os meus olhos.

sexta-feira, 27 de maio de 2016

O abuso psicológico dói como um abuso físico. Quem já sofreu, sabe. É ferida que fica aberta.
Reconhecer que foi abusada psicologicamente por alguém  é um processo de libertação e lágrimas. Admitir que alguém que você ama pode fazer mal pra você é um primeiro passo. Gritar é um segundo. Deixar é o terceiro.
Quando sua mente é abusada você se autoboicota o tempo todo, se culpa, é comum que quem abusa te faça acreditar que atitudes tomadas contra você não existem, ou são inocentes impulsos, e que você cria situações em sua própria cabeça,  que a tristeza e dor que você sente são apenas loucuras, alucinações. E é nessa hora que você se sente pequena, a menor do mundo, insegura e frágil.
A sociedade machista nos abusa psicologicamente todos os dias. Eles podem nos fazer acreditar que nosso corpo é desprezível ou que é tão convidativo que é impossível se controlar perto de nós, que nós não somos interessantes ou somos muito, isso baseado no interesse masculino, que não somos dignas de elogios ou que devemos caladas ser "elogiadas" por qualquer um, que somos dispensáveis ou que servimos para servi-los.
Somos objetos de consumo. Descartáveis, trocáveis, usáveis.  Nossos sentimentos, ideias, vontades desaperecem porque somos produto.

E produtos funcionam, não reclamam.

Minhas feridas estão abertas, mas eu cansei. Não quero mais ser produto. Falharei, eu sei, porque tudo é construído pra que eu falhe. Mas eu falarei. Gritarei. Jogarei na cara toda vez. Porque não é remorso, é dor.

segunda-feira, 16 de maio de 2016

Compreendi
A briga
A mão
A faca
O ferimento
A lágrima
A cura
E a cicatriz
O que ficou no pensamento
Foi o instante
Entre o corte
E o sangue
Isso
A poesia não diz
estranhos
sobre o mesmo
teto
meus olhos
tristes
teu desafeto
quanto tempo...
quanto
ego!
sem tato
faltava
tino
a taça
com vinho tinto
estilhaçou
sobrava tinta
e silêncio
tonta
não entendia
nada
entediada
só pintava
feito louca
o branco
e preto
de tudo
desfeito
desesperada
te procurava
até
entre
as minhas
entranhas
estive
tão
cansada
tamanha
falta
do que era tanto
e a rotina
matou
tua alma
egoísta
só
enterrou
sem rezar
e
então?
terminou
mas a memória
guarda
todas
as apostas
dos cílios
os jeitos
dos sonhos
nossos temas
nos discos
perdoa
mas não foi
a toa
que eu saí dos
trilhos
meu trem
tem pressa
não se despeça
serei eterna
até quando
não estou

carapuça

cabeça confusa
meus versos são iguais
mas cabem
todos
em alguéns diferentes
cada um que me toca
ganha um sentimento
mas minha poesia
é vento
é de quem acha
que se encaixa
palavras
são incapazes
de expressar a dimensão
de amor e dor
antes de vestir-se
da poesia alheia
lembre-se
sempre:
o poeta é um fingidor
só se ajoelha diante de mim
quem tem fé
cética
acredito no que é ou não é
crucifica-me se for capaz
se quiser me prender
solte Barrabás
meu vinho só serve aqueles
que sabem que nunca fui
nem serei água
não posso ser paraíso
já que queimo por dentro
feito inferno em brasas
não sou profana
só natural
mundana
faço parecer que sou sua
morro de braços abertos por ti
porque adoro drama
mas ressucito
no terceiro dia
irreal como poesia
escuto a voz que me chama
recuso o seu deus
adeus
meu único templo
tem como nome
Anna

sexta-feira, 6 de maio de 2016

Seus olhos de luneta
Pequenininhos
Enxergam todas
As minhas estrelas
Seu sorriso largo
Invade e descobre
Todos os cantos
Dos meus planetas
Seus sonhos loucos
Aos poucos
Atingem as minhas galáxias
Seu coração quente
Explode e transforma
Toda em Mercurio
A minha Via Láctea