quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016
Liberdade
Que prendeu meus pensamentos
Te achei estranhamente lindo
Admirei os seus defeitos
Essa sua segurança de um moço
De 21 anos
Sem medo no peito
Essa sua insegurança de um moço
De 21 anos
Querendo impressionar o mundo inteiro
Você quase contradiz as regras da sociedade
Não se preocupa com a moral
Mas teme a calvície que veio antes da idade
Se olha nos reflexos
Dos prédios
E se pergunta:
Quem de tudo isso que eu quero agarrar
Me agarraria?
Me espia
De novo
De frente
De costas
De rabo de olho
Me prende
Me solta
Me curva
Me salva outra vez da nega maluca
Você me despertou pra vida
Árbol de la esperanza
Em meio a serpentina
Me fez lembrar que a minha poesia preferida
É aquela do Drummond
“Mundo mundo vasto
mundo
Mais vasto é o meu coração”terça-feira, 26 de janeiro de 2016
Fui
Como as mulheres de minha família
Paciente
Com toda
Irresponsabilidade
Passividade
Mentira
Perdoei com a desculpa de que você
Nunca soube direito o que fazer
Quando no fundo eu sabia
Que você fazia tanta coisas
Sem que eu soubesse
Lembro disso
Quando me vem
A noitinha ou logo de manhã
Um tipo de buraco na boca do estômago
Um buraco pesado
Que amolece o corpo
Quando choro escondida no banheiro
Lágrimas que caem naturalmente ferozes
Como tempestades
Eu lembro
Que fiz minha parte
E tudo que eu ouvi foi
Silêncio
Seu ego me viu secar
Como aquelas rosas que a gente colocava em garrafas de cerveja usadas
Nós demoravamos pra tirá-las de lá
Porque elas pareciam belas
Mesmo mortas
Mesmo sem transmitir nenhum tipo de alegria
A gente enconde a verdade de nós mesmos
Quando é mais fácil
Ou quando dói
Como as mulheres de minha família
Paciente
Com toda
Irresponsabilidade
Passividade
Mentira
Perdoei com a desculpa de que você
Nunca soube direito o que fazer
Quando no fundo eu sabia
Que você fazia tanta coisas
Sem que eu soubesse
Lembro disso
Quando me vem
A noitinha ou logo de manhã
Um tipo de buraco na boca do estômago
Um buraco pesado
Que amolece o corpo
Quando choro escondida no banheiro
Lágrimas que caem naturalmente ferozes
Como tempestades
Eu lembro
Que fiz minha parte
E tudo que eu ouvi foi
Silêncio
Seu ego me viu secar
Como aquelas rosas que a gente colocava em garrafas de cerveja usadas
Nós demoravamos pra tirá-las de lá
Porque elas pareciam belas
Mesmo mortas
Mesmo sem transmitir nenhum tipo de alegria
A gente enconde a verdade de nós mesmos
Quando é mais fácil
Ou quando dói
Pulei
Não existe nada pior do que viver em uma inércia cômoda. Nada é mais doloroso. Nem o fim. Nada pode ser mais doído do que levantar questões e não escutar respostas, do que conversar sozinho. Não faz bem nunca ouvir elogios, pior ainda é nunca ouvir putaria. É triste dormir sendo enganado. É decepcionante não ver esforço para que você sinta admiração, ou simplesmente para que você fique. Viver assim é como estar indeciso a beira de um penhasco ao lado de alguém que acha que você nunca vai ter coragem de pular.
terça-feira, 12 de janeiro de 2016
Sororidade preta: o sentimento antes do termo
Aquele olhar.... O olhar de reconhecimento. Que preta nunca o recebeu? Quando saímos do nosso ambiente de convívio e enxergamos lá fora alguém como nós, os olhares se cruzam e uma sensação boa invade o peito, a sensação de irmandade.
Antes de saber o que era sororidade, era isso que eu sentia sempre que via uma mulher negra. Mesmo ainda não me reconhecendo negra de fato, mesmo nem um pouco próxima das questões feministas e raciais, eu sempre vi em outra mulher negra algum tipo de proximidade.
Desde criança isso acontece, quando via outras crianças negras, principalmente meninas, meus olhos se acendiam como estrelas e eu olhava, daquela maneira indiscreta que as crianças costumam olhar, para o outro que era maravilhosamente ou assustadoramente, igual a mim. Sim, porque também assustava saber que existia outro alguém no mundo que se sentia como eu. É claro que como criança eu não tinha esclarecimento sobre esses pensamentos, eu apenas me sentia assim.
E mesmo depois de crescida, isso não se perdeu, é inevitável que no ônibus, na rua, no mercado ou em qualquer lugar meu olhar cruze-se com o de outra preta, como se fosse um código, como se fosse impossível não olhar uma para outra como se já nos conhecêssemos. Um sorriso, um tratamento diferente, uma facilidade de empatia, acabamos sempre nos relacionando de forma mais íntima.
As vezes a sensação de se enxergar no outro traz um misto de sensações, pode ser difícil se não é assim que você quer se reconhecer. Pra mim o processo de me reconhecer negra demorou, por conta do que esse reconhecimento carrega. Precisei esclarecer antes algumas questões, precisei saber o que significava tentarem me convencer que eu não era negra e sim “moreninha”, precisei compreender várias situações da minha vida e porque elas ocorreram, e foi aí que entendi que eu não estava sozinha, que nós eramos muitas e que não havia nada de errado nisso, que aquela sensação diferente que eu sentia quando encontrava uma outra mulher negra, era simplesmente uma busca pelo meu próprio eu. Aquelas mulheres que eu olhava na rua eram negras, as mulheres da minha casa eram negras e isso se tornou maravilhoso, porque enfim eu também podia SER.
Fui há um tempo atrás acompanhar uma amiga em uma escola para uma palestra sobre racismo, estávamos eu, ela e mais uma amiga, todas negras. Era uma escola de periferia e muitas crianças também eram negras. O olhar fraterno vindo das crianças foi instantâneo, e senti que aquilo não aconteceu só porque eramos adultas falando para toda classe, mas também porque havia um reconhecimento. Além da nossa fala, a nossa presença, a nossa imagem, como mulheres negras que se reconhecem como tal, fez muita diferença. As meninas se sentiram a vontade para se aproximar e falar sobre suas famílias, sobre suas experiências, sobre seus cabelos, foi bastante significativo pra mim.
Assim como também me marcou o olhar de uma menininha dias atrás numa pizzaria, ela parou o que estava fazendo quando eu cheguei, nós estávamos coincidentemente vestidas de maneira parecida, com o cabelo exatamente igual. Os olhos dela me seguiram por toda a pizzaria, acompanhando meus movimentos, a mãe, ao lado dela, imediatamente sorriu pra mim e nós soubemos o que tudo aquilo significava, mesmo sem termos trocado uma única palavra.
Logo que comecei a faculdade, sozinha, sem dividir com ninguém, comecei a me indagar sobre o que era ser negra. Todos os dias quando eu ia pegar o ônibus para ir até o estágio eu via uma moça. Ela era negra, muito bonita, vestia roupas lindas e tinha o cabelo mais lindo que eu já tinha visto. Diferente de mim, ela usava o cabelo natural, sempre pintado com cores vibrantes. Carregava algum tipo de pasta, ficava pensando, o que ela será que ela faz? Arquitetura? Moda? Alguma coisa legal, com certeza. O meu olhar para ela era aquele. Mesmo que eu não fosse como ela, eu gostaria de ser, ela me inspirava, tinha autoconfiança, tinha estilo e estava com a sua pasta buscando algum tipo de conhecimento, buscando fazer algo que ela gostava. O meu pensamento era basicamente: “Olha minha irmã ali do outro lado, ela pode ser o que ela quiser, então eu também posso”.
Passei anos observando essa moça pelas ruas, enquanto fui crescendo, fui evoluindo, fui cada vez mais me aproximando da minha identidade, refletindo sobre o que é ser uma mulher negra e reverberando esses pensamentos.
Dia desses vem uma surpresa, essa mesma moça que mudou tantas coisas em mim, mas com quem eu nunca tive a oportunidade de conversar, me deu um inesperado abraço e disse no meu ouvido: “Obrigada pelo o que você tem feito”. Eu não sei exatamente o que eu tenho feito, mas isso teve um significado enorme pra mim. Não pelo que me foi dito, mas por quem foi dito. Saber que posso chegar de alguma maneira a uma irmã me faz mais feliz.
Nós, mulheres negras, precisamos de mais representatividade, porque essa busca por olhares iguais aos nossos nada mais é que uma carência da sensação de pertencimento. Ainda somos apagas, excluídas e segregadas. Condicionadas a espaços subalternos, estereotipadas, diminuídas. Estamos nos piores lugares das estatísticas. A nossa irmandade inconsciente também nos faz mais fortes na caminhada. Um salve a todas as pretas que encontrei e encontrarei pelo caminho!
segunda-feira, 4 de janeiro de 2016
Meu feminismo é para quem? O mito da mulher forte
Diversas vezes faço questão de me fazer certas perguntas como: meu feminismo é para quem? Meu feminismo é para que? O que pretendo com a ideia de não culpabilizar mulheres ou de ter sororidade? A quem pretendo proteger ou apoiar? Pelos direitos de quem eu luto? O que, de fato, estou mudando em mim e na minha maneira de enxergar outra mulher quando me autodeclaro feminista?
Sou uma mulher negra, sei e vou percebendo quais são as opressões que me atingem, as leis que não me contemplam, como a sociedade se comporta quando se trata das minhas questões. Procuro também saber o que atinge as mulheres que estão a minha volta, as feministas com quais eu milito, minhas amigas e familiares.
Só que será que eu compreendo o que não faz parte da minha realidade? Entendo aquilo que sai fora dos meus padrões? Será que ainda não faço muito juízo de valor de realidades das quais eu não participo? Será que posso entender mulheres que não tem a mesma consciência que a minha?
A grande obrigação da mulher na sociedade patriarcal é ser submissa. Muitas mulheres, por inúmeros motivos, acabam se desprendendo desse papel e se tornando de alguma maneira independentes. O problema é que quando saímos do papel de submissão, ainda acontece de nos condicionarmos e condicionarmos outras mulheres a outro papel submisso, porém um tanto quanto disfarçado de força, o papel da resiliência.
Mesmo nos dizendo feministas, para muitas de nós as mulheres ideais ainda seguem certos padrões. Alguns exemplos são o da mulher que é “melhor que isso”, ou seja, a mulher que passa por uma situação difícil, ignorando e seguindo em frente, ou o da mulher que sofre sim, mas de cabeça erguida. O que nós fazemos é disfarçar o quanto uma mulher pode ser atingida colocando-a na posição daquela que suporta tudo mantendo-se digna.
A mulher que sai desse padrão de resistência cega quase sempre é considerada louca, imoral ou fraca, ela nunca é considerada uma mulher forte e admirável. Ainda nos falta, muitas vezes, um olhar compreensivo para a mulher que não sabe lidar com certas situações machistas de um jeito supostamente inabalável, com a mulher que acaba assumindo papéis que não aprovamos e que discordamos, com a mulher que sucumbe a fragilidade e submissão em um mundo que não apoia suas decisões e desejos.
Também assumimos muito o papel da mulher resiliente sem perceber que se trata de um papel que nos coloca em segundo plano, muitas vezes abdicamos de desejos próprios e enfrentamos dificuldades descabidas para nos encaixarmos ao que é esperado de nós e a imagem a qual queremos transmitir. Realmente, cada vez mais, nos tornamos e nos orgulhamos de sermos mulheres independentes e com voz ativa, tomamos as decisões familiares, temos controle sobre nossos planos profissionais, não nos deixamos abater pelos padrões estéticos. Só que ao mesmo que conquistamos esse poder sobre nós mesmas, algumas de nós ainda carregam o medo de que a imagem de esposa perfeita, de fortaleza que organiza a casa, de base para educação das crianças, de guerreira que enfrenta tudo e todos seja manchada entre família e amigos. Ainda enxergamos a imagem da mulher forte como aquela que não fraqueja nunca, com isso acabamos não permitindo que nenhuma de nós fraqueje.
Os relacionamentos abusivos são uma realidade para inúmeras mulheres, todo mundo conhece uma mulher que vive dentro de um relacionamento que não a agrada ou que não a faz bem, mas que ela não consegue terminar por diversos motivos. Dentro do feminismo discute-se com frequência sobre todos os tipos abusos que a mulher pode sofrer, abusos sexuais, físicos e psicológicos vindo de estranhos ou dos próprios companheiros, também fala-se bastante sobre como a mulher é sempre culpada independente da situação.
Só que as vezes sinto que essas discussões ficam apenas na teoria, nos grupos de Internet e nas frases feitas das redes sociais. Falamos sobre tudo isso e ao mesmo tempo ainda somos, as vezes inconscientemente, capazes de proteger homens em segundos e de rebaixar mulheres na mesma velocidade.
Mesmo nos dizendo feministas, perdoamos com facilidade e não questionamos o papai que foi abusador com a mamãe durante toda vida usando a desculpa de que ele foi um bom pai, e massacramos terrivelmente uma mulher, principalmente se mãe, se ela for infiel ou deixar os filhos. Tratamos como uma zero a esquerda uma mulher porque ela permite que um homem dite o que ela deve fazer e como uma pessoa sem caráter ou intelectualidade uma mulher que se hiperssexualiza. Ainda enchemos os olhos de lágrimas com a história do pai que criou cinco filhos sozinho depois de ser abandonado pela companheira, enquanto esculachamos uma mãe que arranjou um novo e estranho companheiro, mesmo que ela tenha passado toda a vida dando duro pelos filhos. Nós julgamos mulheres com facilidade, nos falta empatia, nos falta sororidade, nos falta compreensão com aquelas que não seguem nossos padrões de conduta, enquanto com os homens, as situações são compreendidas, superadas ou ignoradas. E diante de todo esse julgamento, ainda exigimos que as mulheres sejam fortes.
Desconfiamos e condenamos a mulher que deixa seu psicológico ser abalado, que toma atitudes erradas levada por um desespero desenganado, que assume o papel imoral sem ao menos resistir, que não é digna, que não é forte, que não é guerreira, que não aguenta as pancadas de pé. Queremos que toda mulher que sofre seja resiliente, suporte, não saia da linha. Mantemos, sem perceber, a ideia machista de “mulher de verdade” porque consideramos que o contrário foge dos padrões aceitos e/ou dos nossos valores morais. Nós reproduzimos machismo, nós coroamos um papel tão difícil que é o papel da resiliência.
Quando me pergunto para quem e para que serve meu feminismo, quero ter certeza de que ele também é sobre mulheres fragilizadas, que vivem em situações vulneráveis, com realidades diferentes da minha, quero ter certeza que ele vai servir para que eu seja alguém que tenta ao menos compreender aquela que é julgada e condenada por todo o resto. Eu não entendo muitas atitudes de certas mulheres porque, na maioria da vezes, não são e nem seriam espelhos das minhas, mas a última coisa que eu farei, sendo eu feminista, é julgá-las como loucas, fracas, putas, safadas, sem-vergonhas ou imorais. A última coisa que eu farei é exigir força de alguém que eu não entendo, em uma situação que eu não vivo, ainda mais sendo esta pessoa uma mulher. Se não eu, feminista, quem a olhará com outros olhos? Não adianta eu dizer que minha luta é também pelas mulheres negras e periféricas para parecer altruísta, se muitas dessas mulheres estão em situação de vulnerabilidade e se portando de maneira que eu não aprovaria no meu cotidiano e eu sequer penso nisso. Não adianta eu botar cartaz no Facebook dizendo que “Somos todas putas”, se julgo como puta aquela que não faz o que eu acho que deveria ser feito, se, no fundo, ainda me utilizo desse conceito machista que ironicamente incorporo. Não adianta eu dizer que sei e levantar bandeira, se eu mesma não aplico o que digo.
Ainda cometo muitos erros, essa reflexão me atinge diretamente, todas nós estamos em processo de desconstrução e tentando levar essas ideias a frente, porém me questiono o tempo todo e vou seguir me questionando para que meu feminismo vá além do meu umbigo, para que eu lute, antes de qualquer coisa, pela libertação da mulher, a verdadeira libertação de toda e qualquer mulher.
sexta-feira, 27 de novembro de 2015
#meuamigosecreto
#Meuamigosecreto me dizia que a melhor pessoa pra eu perder
a minha virgindade era ele, que a gente confiava um no outro, que a gente era
amigo e que ele tinha um carinho enorme por mim. Eu ia me apaixonando por
aquelas palavras e pelo jogo que fazia eu me sentir desejada. Logo eu, que
tinha passado por um processo complicado na adolescência de ter sido sempre
preterida, tinha me tornado o patinho feio que virou cisne e agora alguém me queria
de um jeito mais profundo, mais especial. Mal sabia eu que o interesse dele e da
maioria dos meninos por mim dali pra frente seria sempre um único: sexual.
A história era ainda mais complicada, porque uma grande
amiga também era apaixonada por esse #amigosecreto e, claro, apesar de negar, ele
também era apaixonado por ela, toda linda, toda pura, toda branquinha, moça de
família. Eu, a neguinha cheia de fogo, era só para satisfazer o seu instinto as
escondidas.
Eu sempre falava que nada poderia acontecer entre a gente
por conta desse envolvimento entre ele e minha amiga, mas ele sempre me dizia
que ela era passado, além de reforçar um ódio recheado de julgamentos machistas
sobre ela. Então, aos poucos, fui cedendo, nunca dizendo pra ele e nem pra
ninguém o que eu sentia, porque de alguma forma eu sabia qual era o meu lugar e
a minha condição. Ainda fiz isso em diversos relacionamentos mais tarde.
Uns dias depois de uma primeira tentativa de sexo com ele,
eu fui a uma festa e o vi desfilando de mãos dadas com outra garota, mais uma
dessas que preenchem as exigências de “moça para namorar”. Chorei no meio da
festa, bebi tudo que podia, encontrei um amigo dele e foi naquele dia, com esse
sujeito, que perdi a minha virgindade em um motel barato qualquer.
Não me lembro até hoje de praticamente nada. Me senti
péssima e acabei contando pra ele em um outro dia, foi quando ele me levou
embora de sua casa e me tratou como se eu estivesse suja. A coisa só piorou
depois daí, porque agora ele e os amigos tinham aval para me taxarem de biscate,
de fácil e para ficarem me ridicularizando nos lugares. Eu me sentia cada vez
mais perdida.
Quando enfim me libertei de tudo, ele começou a namorar a
minha amiga. Eu tomei coragem e contei o que havia acontecido a ela. Um tempo
depois ele apareceu, tentou fazer com que eu me sentisse culpada, que eu
sentisse vergonha por ter traído uma amiga, que eu sentisse vergonha por ter
exposto algo que era para ter ficado escondido, me julgou, me humilhou, fez com
que eu me sentisse a pior pessoa do mundo.
A minha amiga também achou que eu fosse culpada, brigou
comigo e eu fiquei sozinha. Todos os meus amigos passaram a achar que eu não
era alguém confiável, até eu mesma passei a me ver assim e levei meses para
desfazer esse pensamento na cabeça das pessoas e na minha própria cabeça.
Eu já superei tudo isso, eu já perdoei essa pessoa, apesar de
provavelmente ele ainda se sentir isento de culpa em toda essa história, mas, mesmo
assim, eu não queria ter feito esse relato, porque ainda me dói de alguma forma.
Eu ainda fico tensa quando as pessoas tocam no assunto de virgindade, porque tudo
isso volta a minha cabeça e eu nunca sei o que falar. Só que todas nós
resolvemos juntas colocar essas coisas que doem pra fora de uma vez por todas,
para que os caras se toquem, para que as meninas mais novas não passem por
isso, para que as pessoas percebam como o machismo está impregnado em nós, para
que repensemos a criação de nossos filhos, a educação das nossas crianças. E sim,
histórias e comportamentos como esses se tratam de casos de machismo e não de
um “rolo” como costumam chamar por aí. Viver em uma sociedade machista é achar
que as mulheres são sempre culpadas. Culpadas por se relacionarem com quem bem
entendem, culpadas por aceitarem abusos, culpadas por serem maltratadas.
As meninas além de ter uma relação distante com seus corpos
e a sua sexualidade e terem, em sua maioria, péssimos inícios de vida sexual,
passam por traumas durante a vida inteira com sua aparência e em situações que
comprometem seu psicológico. Entram em relacionamentos abusivos e são
violentadas de várias maneiras, enquanto os garotos seguem a vida sem ser dar
conta disso.
A situação das meninas negras é ainda pior, porque enfrentamos
dupla opressão, a do machismo e a do racismo, nós ainda somos vistas como a
diversão casual, como o objeto sexual, como a cor do pecado, como a imagem do
desejo que não deixa o homem em paz, como se a gente não tivesse nenhum tipo de
sentimento, a gente é apenas carne e é a carne mais barata do mercado. Muitas
vezes, desestabilizadas emocionalmente, a gente assume mesmo esse papel.
Que, no mínimo, antes de ficar bostejando sobre essa
hashtag, parem para refletir como nós mulheres estamos cansadas de desde a
infância sermos subjulgadas e abusadas, como nós estamos saturadas e que isso
não se trata de uma onda, de uma moda, de uma loucura que viralizou, de distribuição
gratuita de ódio (até porque de gratuito isso não tem nada). Somos uma nova
geração de mulheres que resolveu cobrar isso por nós e por quem nunca teve voz.
Que isso sirva pra pensarmos juntos em como podemos mudar essa situação.
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