"Não sei se a vida é pouco ou demais pra mim.
Não sei se sinto demais ou de menos, não sei
Se me falta escrúpulo espiritual, ponto-de-apoio na inteligência,
Consanguinidade com o mistério das coisas, choque
Ou se há outra significação para isto mais cômoda e feliz.
Seja o que for, era melhor não ter nascido,
Porque, de tão interessante que é a todos os momentos,
A vida chega a doer, a enjoar, a cortar, a roçar, a ranger
A dar vontade de dar gritos,de dar pulos, de ficar no chão, de sair
Para fora de todas as casas, de todas as lógicas e de todas as sacadas
E ir ser selvagem para a morte entre árvores e esquecimentos,
Entre tombos, e perigos e ausência de amanhãs,
E tudo isto devia ser qualquer outra coisa mais parecida com o que eu penso,
Com o que eu penso ou sinto, que eu nem sei qual é, ó vida.
Cruzo os braços sobre a mesa, ponho a cabeça sobre os braços,
E preciso querer chorar, mas não sei ir buscar as lágrimas...
Por mais que eu me esforce por ter uma grande pena de mim, não choro
Tenho a alma rachada sobre o indicador curvo que lhe toca...
Que há de ser de mim? Que há de ser de mim?
[...]
Assim fico, fico... Eu sou o que sempre quer partir,
E fica sempre, fica sempre, fica sempre,
Até à morte fica, mesmo que parta, fica, fica, fica...
Torna-me humano, ó noite, torna-me fraterno e solícito.
Só humanitariamente é que se pode viver.
Só amando os homens, as acções, a banalidade dos trabalhos.
Só assim - ai de mim! -, só assim se pode viver.
Só assim, ó noite, e eu nunca poderei ser assim!"
(Álvaro de Campos)
Quando você não pode colocar em palavras o que há dentro de você, Fernando Pessoa, com certeza, pode. E isso sempre esteve dentro de mim. A insatisfação com tudo o que satisfaz. A inadequação ao que é adequado. A vontade de viver todo prazer e toda a desgraça do mundo, contanto que eu viva tudo. Essa sensação é esse poema. Esse poema sou eu.
segunda-feira, 29 de setembro de 2014
sexta-feira, 19 de setembro de 2014
Messias
Eu sou o peito
Que entra na frente do tiro
37 nunca vai ser metralhadora
Pega de raspão
E não acerta outra
Porque eu sou a mão
Que puxa
Do fundo do poço
Eu sou sempre o lenço
Das lágrimas de saudade
Eu sou compaixão
Solução
Nunca marinheiro
Sempre capitão
Que entra na frente do tiro
37 nunca vai ser metralhadora
Pega de raspão
E não acerta outra
Porque eu sou a mão
Que puxa
Do fundo do poço
Eu sou sempre o lenço
Das lágrimas de saudade
Eu sou compaixão
Solução
Nunca marinheiro
Sempre capitão
Síndrome
Sinto meu coração esfriar
Quando você encosta em mim
Suas mãos geladas
Sua pele suada
Sinto minha respiração parar
Quando te escuto ofegante
Seus olhos inquietos
Seu coração barulhento
O seu medo
Que eu não entendo
Como nunca entendi porque
Todos que meu amor toca
Se tornam vulneráveis
Sou melhor amiga da morte
E quando me aproximo
Os que não desistem da vida
Acabam tendo pânico de vivê-la
Eu sou a única que encara
Qualquer batalha
Mas já não posso resolver nada
Nem viciante
Nem passional
Nem patológico
Eu nunca vi ninguém vencer guerra
Sozinho
E eu já morri
Mais de duzentas vezes
Procurando as bandeiras da paz
Talvez eu
É que seja o conflito
Talvez eu
Não sei viver sem conflituosos
Quando você encosta em mim
Suas mãos geladas
Sua pele suada
Sinto minha respiração parar
Quando te escuto ofegante
Seus olhos inquietos
Seu coração barulhento
O seu medo
Que eu não entendo
Como nunca entendi porque
Todos que meu amor toca
Se tornam vulneráveis
Sou melhor amiga da morte
E quando me aproximo
Os que não desistem da vida
Acabam tendo pânico de vivê-la
Eu sou a única que encara
Qualquer batalha
Mas já não posso resolver nada
Nem viciante
Nem passional
Nem patológico
Eu nunca vi ninguém vencer guerra
Sozinho
E eu já morri
Mais de duzentas vezes
Procurando as bandeiras da paz
Talvez eu
É que seja o conflito
Talvez eu
Não sei viver sem conflituosos
segunda-feira, 18 de agosto de 2014
"Perdi alguma coisa que me era essencial, e que já não me é mais. Não me é necessária, assim como se eu tivesse perdido uma terceira perna que até então me impossibilitava de andar mas que fazia de mim um tripé estável. Essa terceira perna eu perdi. E voltei a ser uma pessoa que nunca fui. Voltei a ter o que nunca tive: apenas as duas pernas. Sei que somente com duas pernas é que posso caminhar. Mas a ausência inútil da terceira me faz falta e me assusta, era ela que fazia de mim uma coisa encontrável por mim mesma, e sem sequer precisar me procurar." LISPECTOR, Clarice in A Paixão Segundo G.H.
domingo, 27 de julho de 2014
E eu não mudo, mas eu não me iludo
Muitas vezes eu queria não ser isso que eu tenho dentro de mim. Eu queria ter isso aí que chamam de postura. Não sei não sentir ciúme, não sei não sentir desprezo, não sei não sentir ódio. Não sei não sentir coisa ruim quando me enfrentam. Não sei disfarçar sentimento. Não sei não gritar sentimento. Eu queria saber não falar na cara toda vez. TODA SANTA VEZ eu tenho que falar na cara. Queria não transformar tudo o que é intenso em caos. Queria manter a minha fama de pessoa equilibrada e não surtar. Queria não achar que eu estou sempre certa, simplesmente porque eu sou uma das pessoas mais erradas que já conheci mesmo achando que certo e errado são coisas relativas. Porque certo e errado existe sim. Cansei de chorar a ressaca moral. Cansei de não saber ficar sóbria. Estou sempre cercada de gente louca, porque eu prefiro essa gente, porque eu ando com essa gente desde sempre, porque eu atraio como imã essa gente. Mas nem sempre eu preciso disso. Já disse e repito, sou o amor no estado bruto e isso é insanamente cansativo. Porque nunca é metade, é sempre inteiro. E inteiro sou sempre eu. Chuto as pessoas certas e seduzo as erradas. Eu não queria amar tanto o contrário. Eu não queria me lixar pra alguém e no outro dia implorar pra que essa mesma pessoa não se lixe pra mim. Porque eu não sou nada mais que o outro, apesar de meu orgulho me cegar. Eu queria mudar de opinião mais fácil. Eu queria ser outro bicho que esse que eu sou. Muitas vezes.
terça-feira, 15 de julho de 2014
Poeta
Falta fluidez aos novos poetas
E a mim
Falta tempo
Falta espaço
Para organizar os pensamentos
Falta calma
E fumaça
Falta graça
Falta entender que
Poesia não é ser
Não é aplauso
É silêncio
É falta
E falta um rio de certezas
Sobra lágrimas de dúvidas
Aos que nunca vão crer
E muitos menos se dizer
Poetas
E a mim
Falta tempo
Falta espaço
Para organizar os pensamentos
Falta calma
E fumaça
Falta graça
Falta entender que
Poesia não é ser
Não é aplauso
É silêncio
É falta
E falta um rio de certezas
Sobra lágrimas de dúvidas
Aos que nunca vão crer
E muitos menos se dizer
Poetas
O florescer da pedra
Há de se fazer poesia
Há de se enxergar
O belo no estranho
O tesão no impuro
A segurança na confusão
O ódio no cristão
A paz no obscuro
Há de se preferir o fruto verde ao maduro
Tudo é verso
E o silêncio é rima
O ritmo é a rotina da vida
A delicadeza brutal das coisas
O interesse natural das pessoas
Há de se transformar em soneto
O que se passa desapercebido
A lágrima de sono que escorre
No canto do rosto
O cisco que é cílios
Irritando o seu olho
A primeira visão de você mesmo de manhã
No espelho do banheiro
Tudo é colorido em preto e branco
Tudo é barulhento
E ao mesmo tempo brando
Interessantemente sem graça
Tudo é arte em movimento
Há de se gritar o olhar do tímido
Há de ser mesmo não sendo
Há de se enxergar
O belo no estranho
O tesão no impuro
A segurança na confusão
O ódio no cristão
A paz no obscuro
Há de se preferir o fruto verde ao maduro
Tudo é verso
E o silêncio é rima
O ritmo é a rotina da vida
A delicadeza brutal das coisas
O interesse natural das pessoas
Há de se transformar em soneto
O que se passa desapercebido
A lágrima de sono que escorre
No canto do rosto
O cisco que é cílios
Irritando o seu olho
A primeira visão de você mesmo de manhã
No espelho do banheiro
Tudo é colorido em preto e branco
Tudo é barulhento
E ao mesmo tempo brando
Interessantemente sem graça
Tudo é arte em movimento
Há de se gritar o olhar do tímido
Há de ser mesmo não sendo
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