Sejamos sinceros
Às vezes
Só é preciso um bom sexo
Pra nos lembrar
Que a vida é gozo
E não choro
sábado, 18 de junho de 2016
quinta-feira, 9 de junho de 2016
Meus olhos
Eu tenho uma relação de amor e ódio com os meus olhos.
Lembro-me de uma vez, quando criança, uma mulher ter se apaixonado por eles na mercearia
do bairro. Os dela brilhavam enquanto me dizia encantada que os meus pareciam
duas jabuticabas maduras. Eram, de fato, grandes e brilhantes, mas com o passar
do tempo, meu nariz, boca e bochechas cresceram tanto que os afundaram para
dentro do rosto. Hoje, estão lá, sendo mais como sementes do que como frutos.
Odeio-os porque não tem expressão. Amo olhos expressivos,
que sorriem, que desafiam, que seduzem. Meus olhos não se expressam, quando vejo
seu reflexo posso enxergar algo como um rio imenso e escuro em que as águas não
se mexem e não se pode enxergar o fim. São calmos e sem graça demais e eu
prefiro os voluptuosos.
Pelo menos tem mistério, eu acho. Só que rapidamente o
mistério se dilui em nada, já que nada representam. Nos retratos são meros
coadjuvantes, parecem sempre desajustados, pintados ou sem pintar, tenho a
impressão de serem desalinhados, seus cílios são curtos demais, têm bolsas embaixo
e uma das pálpebras está cheia de pintas. Meus olhos são feios, coitados.
Talvez eu os ame apenas pela estranheza.
Às vezes ficam apertadinhos quando brisados, sonolentos,
semi-acordados, ou quando empurrados por um sorriso exageradamente feliz.
Continuam inexpressivos, mas os prefiro assim. Meus olhos iludem até a mim
mesma, pois nunca posso decifrá-los, estejam eles cerrados ou não.
Raramente se enchem de água, se fecham com dificuldade
quando a noite cai e se perdem com facilidade assustadora. Sempre os pego olhando
para o nada sem meu comando durante longos períodos, fixados em qualquer
horizonte ou desesperadamente errantes. Abertos, mas sem enxergar absolutamente
nada. Porém, não posso culpá-los por isso, não faço meditação, durante esses
surtos são apenas vítimas da minha leseira crônica.
Além de me causarem estranheza, é certo que meus olhos me
incomodam. Sempre quis que fossem outros, talvez mais claros ou mais escuros,
tento em vão puxá-los ou levantá-los com pinturas, tento encará-los com
carinho, tento fazê-los reagir, mas eles continuam lá, sem nada a me dizer, em
silêncio. É também por isso que os amo. É também por isso que os odeio. Nada
pode me causar mais paixão e repulsa ao mesmo tempo do que o aquilo que é
estranho e desconfortável. Sigo nesse romance mal-resolvido com os meus olhos.sexta-feira, 27 de maio de 2016
O abuso psicológico dói como um abuso físico. Quem já sofreu, sabe. É ferida que fica aberta.
Reconhecer que foi abusada psicologicamente por alguém é um processo de libertação e lágrimas. Admitir que alguém que você ama pode fazer mal pra você é um primeiro passo. Gritar é um segundo. Deixar é o terceiro.
Quando sua mente é abusada você se autoboicota o tempo todo, se culpa, é comum que quem abusa te faça acreditar que atitudes tomadas contra você não existem, ou são inocentes impulsos, e que você cria situações em sua própria cabeça, que a tristeza e dor que você sente são apenas loucuras, alucinações. E é nessa hora que você se sente pequena, a menor do mundo, insegura e frágil.
A sociedade machista nos abusa psicologicamente todos os dias. Eles podem nos fazer acreditar que nosso corpo é desprezível ou que é tão convidativo que é impossível se controlar perto de nós, que nós não somos interessantes ou somos muito, isso baseado no interesse masculino, que não somos dignas de elogios ou que devemos caladas ser "elogiadas" por qualquer um, que somos dispensáveis ou que servimos para servi-los.
Somos objetos de consumo. Descartáveis, trocáveis, usáveis. Nossos sentimentos, ideias, vontades desaperecem porque somos produto.
E produtos funcionam, não reclamam.
Minhas feridas estão abertas, mas eu cansei. Não quero mais ser produto. Falharei, eu sei, porque tudo é construído pra que eu falhe. Mas eu falarei. Gritarei. Jogarei na cara toda vez. Porque não é remorso, é dor.
Reconhecer que foi abusada psicologicamente por alguém é um processo de libertação e lágrimas. Admitir que alguém que você ama pode fazer mal pra você é um primeiro passo. Gritar é um segundo. Deixar é o terceiro.
Quando sua mente é abusada você se autoboicota o tempo todo, se culpa, é comum que quem abusa te faça acreditar que atitudes tomadas contra você não existem, ou são inocentes impulsos, e que você cria situações em sua própria cabeça, que a tristeza e dor que você sente são apenas loucuras, alucinações. E é nessa hora que você se sente pequena, a menor do mundo, insegura e frágil.
A sociedade machista nos abusa psicologicamente todos os dias. Eles podem nos fazer acreditar que nosso corpo é desprezível ou que é tão convidativo que é impossível se controlar perto de nós, que nós não somos interessantes ou somos muito, isso baseado no interesse masculino, que não somos dignas de elogios ou que devemos caladas ser "elogiadas" por qualquer um, que somos dispensáveis ou que servimos para servi-los.
Somos objetos de consumo. Descartáveis, trocáveis, usáveis. Nossos sentimentos, ideias, vontades desaperecem porque somos produto.
E produtos funcionam, não reclamam.
Minhas feridas estão abertas, mas eu cansei. Não quero mais ser produto. Falharei, eu sei, porque tudo é construído pra que eu falhe. Mas eu falarei. Gritarei. Jogarei na cara toda vez. Porque não é remorso, é dor.
segunda-feira, 16 de maio de 2016
estranhos
sobre o mesmo
teto
meus olhos
tristes
teu desafeto
quanto tempo...
quanto
ego!
sem tato
faltava
tino
a taça
com vinho tinto
estilhaçou
sobrava tinta
e silêncio
tonta
não entendia
nada
entediada
só pintava
feito louca
o branco
e preto
de tudo
desfeito
desesperada
te procurava
até
entre
as minhas
entranhas
estive
tão
cansada
tamanha
falta
do que era tanto
e a rotina
matou
tua alma
egoísta
só
enterrou
sem rezar
e
então?
terminou
mas a memória
guarda
todas
as apostas
dos cílios
os jeitos
dos sonhos
nossos temas
nos discos
perdoa
mas não foi
a toa
que eu saí dos
trilhos
meu trem
tem pressa
não se despeça
serei eterna
até quando
não estou
sobre o mesmo
teto
meus olhos
tristes
teu desafeto
quanto tempo...
quanto
ego!
sem tato
faltava
tino
a taça
com vinho tinto
estilhaçou
sobrava tinta
e silêncio
tonta
não entendia
nada
entediada
só pintava
feito louca
o branco
e preto
de tudo
desfeito
desesperada
te procurava
até
entre
as minhas
entranhas
estive
tão
cansada
tamanha
falta
do que era tanto
e a rotina
matou
tua alma
egoísta
só
enterrou
sem rezar
e
então?
terminou
mas a memória
guarda
todas
as apostas
dos cílios
os jeitos
dos sonhos
nossos temas
nos discos
perdoa
mas não foi
a toa
que eu saí dos
trilhos
meu trem
tem pressa
não se despeça
serei eterna
até quando
não estou
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