terça-feira, 19 de abril de 2016

solução de ilusão

chegou
me cegou
secou
o sangue
que escorria
sem
estancar
sem mais
nem menos
não sofria
mais
mas sem deixar
de desconfiar
foi
subordinada explicativa
um sopro
uma necessidade
de satisfação
entre as vírgulas
da vida
um sossego
um tesão
uma saída
depois
sumiu
saiu
sei lá
eu sentia
sozinha
mas sem dor
só
saudade
se for
nem sei explicar

sábado, 16 de abril de 2016

sou como dizem
coração mole
idiota
realista dilacerada
esqueço fácil
quem me caça
me some
a cara do predador
consumida
às vezes pela cachaça
na maioria das vezes
pelo amor
amo
até quem me fura
pelas costas
um sorriso
já me põe disposta
a compreender
a pequenez do outro
a enxergá-la em mim
me xingue
beije meu ex-marido
me odeie sem motivo
eu te amarei
essa é minha vingança
meu coração fridesco
árvore da esperança
sempre vê
alguma poesia
na dor do mundo
opressores
invejosos
arrogantes
preconceituosos
amo sem distinção
digo não
me incomodo
não suporto
me revolto
o que nunca consigo
é ter ódio
nada pode ser maior
que o meu perdão

quinta-feira, 14 de abril de 2016

eu não nasci pra ser de alguém
isso porque
os jornais dizem que valho
mais de mil vinténs
é certo
sempre desperto
mais que um pênis ereto
provoco
o cérebro
o desespero
tiro fora do eixo
não peço arrego
encaro de frente
não calo
pra frente
apesar disso
sou pateticamente
normal
nunca fui diferente
não sou biscate
tenho modos
me encaixo no sonho da família
só não suporto
nem nunca suportei
a ideia de ser uma
isso sempre me faz sofrer
nunca diga nunca
mas eu exijo prazer
cerveja gelada
poesia
bocas de meninas
você

Mariposa



ninguém reparava
em suas asas
antes que começasse a voar
incomoda
porque é mariposa
e não borboleta
diferente
asas negras
pela noite
batem
exploram
ares
casas
corpos
gosta de se sentir abrigada
entre paredes
mas some
assim que o dia amanhece
é predestinada
a olhares desconfiados
uma presença
que hora acalma
hora enlouquece

segunda-feira, 4 de abril de 2016

é como a chuva
num domingo de manhã
quando chega
me desperta
só pra eu ter o prazer
de relaxar de novo
folga
brisa
cheiro
seu abraço
não é aguaceiro
é chuva fina
que molha
escorre
e limpa
chova todo dia
em mim

terça-feira, 29 de março de 2016

só ser

O sentimento da solidão
Seja
Escolhido ou não
Transforma
Põe forma
Às coisas que antes não reparávamos
Reparos emocionais
Consertos
Valores e culpas
Acertos e erros
Sentir-se só
No mundo
Desprender-se do outro
E de tudo
Traz sensibilidade
Visão ampla
Mais verdade ao coração
Nós
A sós
Podemos enxergar
Nos espelhos das casas
E dos olhos
Nossas próprias frustrações
Medos
Belezas
E sonhos
Sozinhos
Nos fechamos em nossos casulos
Quem vive e sente
Aprende a aproveitar
Percebe que é só o tempo
Nos preparando para voar

Muda

A militância exige que eu grite
Mas essa cidade só me causa
Silêncio
Pra que eu não permaneça calada
Me manifesto, então, em forma de versos
Só o que peço é que me escutem
Porque eu também sou poeta
Porque assim eu quis
Me desfiz
Do que ainda hoje
Querem que eu seja
Não sou mulata
Não sou mucama
Minha dona
Sou eu
Não esquento cama de doutor
Não obedeço ordem de quem for
A nenhuma Princesa Isabel
Devo favor
Ao contrário do que dizem
Eu sempre soube o meu valor
O que eu nunca soube
Mas tive que engolir
Foi o ir e vir de sorrisos amarelos
De um mundo não sincero e hostil
Porém me nego a abaixar a cabeça
E acreditar que eu só existi
No momento em que o outro me viu
Já tive que ouvir tanta besteira
Dessa Rio Preto cafona e interesseira
Que me prefere muda
Que me prefere nada
Que adora minha mão-de-obra barata
Mas não aceita que eu me torne destaque
Pois chamem de pretensão
O que sai da minha mente e coração
Essa é minha forma de combate
À essa casa-grande alternativa
À essa elite deprimente e bem sucedida
A esse bando de covardes