segunda-feira, 22 de junho de 2015

Vaginarte

Válvula de escape
Escuridão que clareia
Esconderijo de felicidade
Experiência
Leia-a
Se necessário
Folheie-a
Melhor música
Em ritmos calientes
Linda imagem
Repetida em várias diferentes
Conheça seu ponto clitóris
Conheça-se
Ins
Pire-se
Divulgue
Experimente o
(tesão)
Entre parênteses
Sem pudores
É universo próprio
Assemelha-se à Marte
O planeta que sangra
E brilha como estrela
Compreenda primeiro
A primeira obra de arte
Vendem-se viagens
Para Vaginarte

Anna M.O

Visite: http://annam-o.tumblr.com/

Bloco de notas

Tem gente falando em trajetória de sucesso
Eu não tenho trajetória certa
Muito menos sucesso
A grande verdade é que se você não acredita na verdade
Deve parar de se vangloriar por ser um mentiroso
Se não há verdade, não há mentira
A vida só seria bela mesmo
Se a gente pudesse beijar todo mundo que a gente tem vontade
Mas tinha que ser beijo de língua
Ontem a lua tava linda
Crescente ao lado de uma estrela
Perfeita como um desenho de uma criança de oito anos
Gosto mais do pincel molhando o papel
Do que de ver o desenho pronto
Observo o mesmo tanto que falo
Dificilmente me calo
Só quando acho o silêncio necessário
Ontem também descobri que o príncipe nem sempre é encantado
Eu é que me encanto muito fácil
Não gosto de gente que planta esperança
Se não tem cu pra ir até o talo
Sou oito ou oitenta
Se que me quer por perto
Então aguenta
A única arte que não tenho habilidade
É a de disfarçar

domingo, 31 de maio de 2015

Prepara pra ser
Alguém que você não pode
Coração até dispara
Quando pensa em
Pose
Posses
Não!
Silêncio
Sem chance
Chega dessa chatice
Não chore
Chuta o balde!
Eu não me esqueço de quem eu sou
Meu nome é Anna
Aliterações harmoniosas pra me apresentar
Eu estudei literatura
Mas é com simplicidade que eu vou continuar
Rimas simples
Não envolvo finesse com cultura
Minha poesia é cantada
Diamante bruto
Não foi lapidada
Eu não tenho problema em ser lembrada como artista de rua
Repente, cordel ou rap
Que seja emocionante e genuíno
O valor da arte não se mede
Minhas raízes não são clássicas
Devo minha inspiração ao natural
À mãe África
Me dê licença pra brotar
E quero a melhor forma pra eu crescer
Eu não vou fugir de quem eu sou
E ninguém vai me dizer o que eu devo ser
Dependência, conveniência, falsidade
Não faço contatos
Prefiro amizades
Também não sou de pagar de sorriso à toa
Sem menção honrosa, sem massagem
Mas acredito com todas as forças em sentimentos verdadeiros
Parceria, respeito, lealdade
Nunca precisei usar de caminhos tortos
Para conseguir o que eu queria
Considero toda forma de arte
Me inspiro na sabedoria
Que não é presunçosa
Me identifico mais com espinhos
Do que com as rosas
Tentativas ditas refinadas por gente que se leva a sério
O que se considera bom
Depende muito do critério
Prefiro as rimas toantes
Ritmo rasgado
Palavras atuantes
A rebeldia da voz que grita o engasgado
E o engasgo não precisa ser só do cantor de rock londrino entediado
Caminho e sinto o chão a cada passo
Sonho, mas também me encaro
Gosto de aprender muito mais do que ensinar
Eu sou um pedacinho de nada de um pedacinho de cada
Dentro de tudo que há
Bossa nova não é minha única referência
MPB tem sua beleza
Mas bota um bom samba pra tocar
Continuo no meu caminho
Mas você sabe como é
Quem não quer escutar um samba comigo
Só porque não gosta do meu batuque
Eu fico esperta, me desculpe
Meu amigo e bom sujeito
Com certeza não é

quinta-feira, 14 de maio de 2015

Essa poesia
Eu fiz no meio da solitária noite
Sozinha
Eu ando meio esquecida
Não da cabeça
Mas do verbo
Que tem como auxiliar ser
Eu fiz essa poesia pra você
É
Pra você
Talvez não devesse
Mas é pra você
E você sabe o porquê

quarta-feira, 13 de maio de 2015

13

Somos todos iguais
Todos brancos
Todos pretos
Todos índios
Todos seres humanos
Esse é o país da miscigenação
Mas na real
Eu quero ver quem vai dizer:
Eu sou preto!
Quando os gambé chegar com o cano na mão
Você acha que eles matam pela cor da alma?
Então, calma
Me explica porque a maioria dos jovens que morrem nesse país tem a pele escura?
O racismo existe sim
E no Brasil faz parte da nossa cultura
É uma doença que parece sem cura
Quando eu andava pelos corredores de uma universidade pública
Eu me perguntava
Onde estão meus irmãos?
Por que como eu eles não tiveram educação?
Ninguém quer saber de cotas
Mas já faz uma cota que eu vejo que negro não tem opção
Como a gente vai negar a história?
Como vai dizer que não tem mais segregação?
Se numa classe com trinta
De negro era só eu, o quadro e mais dois com a caneta na mão
Se você acha que isso é por acaso
Que é falta de estudo e não descaso
Que falta força de vontade pra neguim que não teve nem o ensino básico
Reveja seu pensamento raso
Mude seus conceitos
Se tem uma coisa que a gente ainda tem que discutir
Essa coisa é o preconceito
Só quem é sabe o que ser preto
O que é ser olhado de cima embaixo
O que é ser seguido toda vez em todos os corredores de supermercado
O que é alguém te ver vindo na mesma direção da calçada
Ficar com medo e mudar de lado
O que é ser suspeito em potencial antes mesmo de levar o enquadro
Na primeira oportunidade de piadinha escrota te oferecerem banana e chamarem de macaco
Preto, tifu, tiziu, você é mais escuro que a cor desse asfalto!
Se fosse por eles você seria pisado
A sociedade quer que você se sinta inferiorizado
Se morrer é um número a menos pro Estado
A maioria das pessoas da sua cor estão na miséria ou vendo o sol nascer quadrado
Branco, eu sei que às vezes a vida também custa pra você
Mas assuma, não custa tão caro
Não há argumentos que contestem os fatos
O buraco é bem mais embaixo
E a gente tem que falar sobre isso sim
Mesmo que incomode, mesmo que seja chato
É bonito pensar que somos todos uma coisa só
Eu não sou pessimista
Também quero um mundo melhor
Mas é preciso ser consciente do que acontece com a gente
É isso que nos liberta das correntes
É o que nos ajuda a desatar os nós
Questionar o sistema é o nosso dever
O mundo é bem mais complexo do que a gente vê na tv
Não confie nas frases feitas dos atores de Hollywood no facebook tentando te convencer
É triste, mas é preciso reconhecer
Que somos todos iguais o caralho!
O pior cego é aquele que não quer ver

sábado, 25 de abril de 2015

O cara

Essa é uma homenagem pra um cara de vários nomes
Vermei, ferrugem, foguinho
Um cara humilde, talentoso e tranquilo
Era pra gente ser rico
De tanto que falam que ele tem cara de palyba
Mas a gente continua pagando aluguel
E ele acordando cedo pra comprar os vinil e as peita
Minha mãe continua dando um trampo lá no hospital
E a mãe dele em casa de família
Foi com elas que a gente aprendeu a dar valor nas coisas simples
E a cuidar da nossa própria vida
Tem gente que fala que esse cara tá fodido comigo
Mas muito pelo contrário
A gente tem umas treta sim
Mas ele não paga de otário
É o meu marido
O meu melhor amigo
Fecha e corre comigo
Me apoia quando eu preciso
Sabe que eu posso ser a mulher dele
E ser a minha própria mulher
Sabe que eu posso respeitá-lo
E ao mesmo tempo ter o poder que eu quiser
E é por isso que ele foi o escolhido
Porque ele é um homem de verdade
Não se deixa ser corrompido
Ruivo power cheio de estilo
É do tipo que eu admiro
Se ele estivesse numa estante de Deus
Eu pedia: "Senhor,
Me dá um pouquinho daquilo!"

Foto por Vitão Natureza - "Olhar Natural"

Transição


Todo mundo achava bonitinho
O menininho do comercial cheio de cachinho na cachola
Mas aí eu não entendi porque que minha mãe ficou desesperada
Quando eu quis ir de cabelo solto pra escola
"Não, menina!
Prende esse cabelo!
Amarra esse cabelo!
Senão fica feio, igual cabelo de preto!"
Eu me olhei bem no espelho
Olhei meu rosto de perto
Ou eu era daltônica
Ou aquilo não tava certo
Hoje eu vejo
Minha mãe tinha medo
Que eu fosse zoada como ela por quem se achava mais esperto
Era isso que não tava correto

Com 11 anos eu sentei na cadeira da cabeleireira
E escutei o que ela disse
"Agora sim você vai ficar linda
Vai ficar parecendo princesa da Disney!"
O meu rosto se encheu de alegria
Finalmente eu ia poder colocar a fantasia
De branca de neve
Podia ser até a Cinderela com sapatinho de cristal
Eu não era mais diferente
Agora eu era igual
Igual aquele que um dia me disse que meu cabelo era ruim
Mal sabia eu que eles estavam me mandando de novo pra senzala
E eu fui
Como meus ancestrais obedeci meu opressor
Eles não queriam que eu soubesse o meu valor
Meu cabelo tinha ficado liso
Mas eu continuava da mesma cor
Não me reconhecer em quem eu era
Nem na capa da revista
Nem na atriz da novela
Me causava muita dor

Mas aí eu cresci e comecei a me perguntar
Por que é que eu sou negra e tenho que me negar?
Comecei a perceber que existiam mulheres reais em quem eu podia me espelhar
Toda negra quando se encontra na rua
Se reconhece numa troca de olhar
Então eu tirei o formol do cabelo
Joguei fora a chapinha
Aprendi que em terra de cabelo liso quem tem cachos é rainha
Minha coroa de princesa agora é um turbante
Alguns me acham elegante
Outros me chamam de exótica
"Nossa, moça, que cabelo diferente, né?
Deve dar um trabalho, ainda bem que você gosta..."
Quem tá dando trabalho é você!
Ninguém pediu sua opinião
Diferente é essa sua cara de bosta
Eu não levo desaforo pra casa
Já falo na cara
Melhor do que falar pelas costas
E eu te pergunto: meu cabelo é diferente de quê? É diferente de quem?
Vou te passar uma informação
Nós somos metade dessa país aqui
Nós não somos ninguém

Libertem-se meninas negras!
Armem-se de seus cabelos armados
Vamos pra guerra juntas, de mãos dadas, lado a lado
Vamos provar que isso aqui não é sujo
Que preto não é imundo
Que o crespo é motivo de orgulho
Que nosso cabelo não é estilo e nem mudança de visual
Nosso cabelo é raiz, é resistência
Isso aqui não vai ser mais diferente, não
Isso aqui vai ser natural!