quinta-feira, 10 de julho de 2014

Eu sou neguinha

Há dias venho pensando em falar de fato sobre ser negra. Ser negra acaba sendo, numa visão social e histórica dos fatos, uma experiência, um estado, um desafio. Sempre falei sobre negritude e sobre o negro de forma geral em pequenas doses. Mas nunca falei sobre ser negra e o que isso significa pra mim no meu ambiente social, no meu país, no meu mundo, na minha vida.
Meus pais são negros. Sei pouco sobre a vida deles e sobre as experiências deles. Meu pai morreu cedo, foi alguém que nunca tive muito contato, era alcoólatra pelo que me recordo, e minha mãe foi meu grande espelho de mulher. Minha mãe é uma nega bonita que eu acho que até hoje ainda não sabe o valor de ser uma mulher negra. Minha mãe sempre teve amigas brancas, as suas irmãs eram, apesar de mulatas (devido a mistura racial da família), consideradas brancas. Apesar de sempre frequentar lugares dominados pela cultura afro, minha mãe cortou seu cabelo por muitos anos e quando finalmente os deixou crescer e criar vida, ela alisou. E ela fez a mesma coisa com o meu cabelo, aos 11 anos de idade eu estava sentada em uma cadeira e com uma química forte em meus fios, perdendo meus lindos cachos e com a promessa de que eu  ficaria parecida com uma princesa, porque, afinal de contas, as princesas têm cabelos lisos. E sempre escutei que meu nariz era largo demais e meus lábios grossos demais. Um colega de classe passou um ano durante todos os dias rindo na minha cara por conta dos meus lábios e eu nunca respondi. Quando menor ainda, uma desconhecida pediu que eu saísse do seu lado para que não encostasse aqueles cabelos nela. Minha mãe, assim como minha vó, que era negra, recomendava que sua filha não tomasse sol demais. E eu entendo o porquê, era para evitar o sofrimento. Eu seria aceita. Seria aceita por uma sociedade que julgava meu cabelo ruim, meu nariz feio, minha boca grande e minha pele pouco convidativa. Tive poucas amigas negras nos bons colégios que estudei, tive poucas referências na tv e achava que alisar o cabelo e pensar em fazer plásticas para mudar meus traços era algo absolutamente normal. Eu me sentia feliz quando alguém dizia que eu não era tão escura, quando me chamavam de "moreninha". Isso se chama processo de embranquecimento.
Na minha adolescência a minha pele se tornou convidativa. Porque ela era da cor do pecado, ela trazia olhares maliciosos, porque negras, além da pele bonita, são boas de cama, têm natureza sexual. Mas nunca são para casar. Isso se chama sexualização da mulher negra. Acredite, há muita gente que não sabe que mulheres têm desejos sexuais normais assim como os homens e que isso independe de sua cor. A mulher negra sofre duas vezes o preconceito, o racismo e o machismo.
Na fase adulta, quando pela informação, inclusive da Internet, pelo interesse em me reconhecer em gente como eu, em saber o que essas pessoas pensavam, pela sede em descobrir e questionar o meu mundo, eu entendi que meu cabelo era bonito e que eu poderia tirar aqueles produtos dele, que minha cor não era motivo de vergonha e muito menos um apelo sexual, que meu nariz não precisava de plástica e que eu era uma mulher bonita com minhas próprias ideias e opiniões porque eu era eu. Eu nunca precisei que alguém me achasse bonita ou feia, que me achasse inteligente ou burra, que alguém me achasse arrogante por expressar sem medo as minhas opiniões ou humilde por expô-las, nunca precisei que alguém me achasse mais ou menos. Eu só precisava ser e ter orgulho de quem eu era.
Quando alguém questiona a autoestima de uma mulher negra que fala de si e de seus problemas, quando alguém diz que a mulher negra se vitimiza e tapa os olhos para toda história e para o racismo presente e pulsante, quando alguém elogia uma negra para "fazê-la sentir-se melhor", eu lamento. Isso se chama racismo. E eu lamento muito pelo racismo.
Enxergar com olhos bem abertos e falar sobre o preconceito de todo tipo, ao contrário do que os supostos subversivos polemiquinhos dizem, é sempre bom. Causa reflexão. A cada dia vejo mais meninas lindas se descobrindo, valorizando sua cor, seu cabelo, seus traços, valorizando o seu ser. A cada dia vejo mais pessoas brancas entendendo porque um negro usa uma camiseta com os dizeres "100% Negro" e a importância da valorização da raça. Um negro que sabe o seu valor é um negro que beneficia outro ser humano, pois se torna um espelho pra quem ainda vive no abismo do racismo. Uma mulher negra que sabe o seu valor é uma rainha, pois o abismo é muito maior. A cada dia enxergo mais compreensão e evolução.
E àqueles que ainda não compreendem, eu desejo um sorriso negro.


2 comentários:

Beatriz Baptista disse...

Muito bom Ana.Parabéns pelo texto e pela autenticidade! :)

Mariana disse...

Um sorriso negro de dentes bem brancos e olhares mulatos. Ouvidos mamelucos e mãos de índio. Humano.