sábado, 26 de março de 2016

vive no país das maravilhas
tipo Alice
capitão do mato
animal domesticado
ainda persiste
obedece quem massacra
se cala em frente aos piores deslizes
só abre a boca pra julgar
aqueles que aproveitaram as chances de se organizar
és o gatilho do teu próprio rifle
deboismo para os cegos
melhor remédio
pra proteção da elite
preto gourmet
discurso de resistência pra inglês ver
arranca aplausos de quem assiste
tua superioridade não passa de covardia
passa um pano pra preconceituoso
e jura que ainda ta por cima
não mete cara
não encara
nega as evidências e gracinhas
é quase da turma dos que pensam que se ninguém falar disso
o racismo some, tipo magia
tua melhor homenagem pra mulher preta
foi postar foto de uma sem calcinha
namastê?
mais amor por favor?
prefiro menos hipocrisia!
síndrome de Cirilo
só as branquinha paz e amor
pra pagar pau pra sua filosofia
desculpa ser tão direta, pretinho
mas ainda da tempo de assinar
a sua carta de alforria

sexta-feira, 18 de março de 2016

Loba

"Contudo, são esses vislumbres fugazes, originados tanto da beleza quanto da perda, que nos deixam tão desoladas, tão agitadas, tão ansiosas que acabamos por seguir nossa natureza selvagem. É então que saltamos floresta adentro, em meio ao deserto ou à neve, e corremos muito, com nossos olhos varrendo o solo, nossos ouvidos em fina sintonia, procurando em cima e embaixo, em busca de uma pista, um resquício, um sinal de que ela está viva, de que não perdemos nossa oportunidade. E, quando farejamos seu rastro, é natural que corramos muito para alcançá-la, que nos livremos da mesa de trabalho, dos relacionamentos, que esvaziemos nossa mente, viremos uma nova página, insistamos numa ruptura, desobedeçamos as regras, paremos o mundo, porque não vamos mais prosseguir sem ela.
Uma vez que a mulheres a tenham perdido e a tenham recuperado, elas lutarão com garra para mantê-la, pois com ela suas vidas criativas florescem; seus relacionamentos adquirem significado, profundidade e saúde; seus ciclos de sexualidade, criatividade, trabalho e diversão são restabelecidos; elas deixam de ser alvos para as atividades predatórias dos outros; segundo as leis da natureza, ela têm igual direito a crescer e vicejar. Agora, seu cansaço do final do dia tem como origem o trabalho e esforços satisfatórios, não o fato de viverem enclausuradas num relacionamento, num emprego ou num estado de espírito pequenos demais. Elas sabem instintivamente quando as coisas devem morrer e quando devem viver; elas sabem como ir embora e como ficar."

ESTÉS, C. P. Mulheres que correm com os lobos : mitos e histórias do arquétipo da mulher selvagem. p.20

segunda-feira, 14 de março de 2016

Será que agora sou dessas
Que escreve sobre todo aquele que caminha
Entre
as
minhas
pernas?
Será que gastarei linhas com essa?
Sendo que nem sei o porquê
Sendo que você
É uma pergunta
E eu nunca pensei que acharia uma pergunta bonita
Às vezes a gente duvida
E é por isso que eu não tinha te olhado ainda
Nunca tinha reparado
Na moldura deliciosa do seu sorriso rasgado
Que você era mais interessante que o amigo do lado
Talvez a tua sagacidade
Eu já tinha notado
Da tua esperteza eu sabia!
E das dúvidas que me restam
Ainda não sei se você fica mais gostoso
Por baixo ou por cima
Ainda bem que antes de partir
Eu conheci a sua melhor rima
E concluí que nem só de amor
Vive uma poesia

terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

Objeto
de meu mais desesperado desejo
não seja aquilo
por quem ardo e não vejo

seja estrela que me beija
oriente que me reja
azul amor beleza

faça qualquer coisa
mas pelo amor de deus
ou de nós dois

SEJA



Paulo Leminski

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016


Liberdade
Que prendeu meus pensamentos
Te achei estranhamente lindo
Admirei os seus defeitos
Essa sua segurança de um moço
De 21 anos
Sem medo no peito
Essa sua insegurança de um moço
De 21 anos
Querendo impressionar o mundo inteiro
Você quase contradiz as regras da sociedade
Não se preocupa com a moral
Mas teme a calvície que veio antes da idade
Se olha nos reflexos
Dos prédios
E se pergunta:
Quem de tudo isso que eu quero agarrar
Me agarraria?
Me espia
De novo
De frente
De costas
De rabo de olho
Me prende
Me solta
Me curva
Me salva outra vez da nega maluca
Você me despertou pra vida
Árbol de la esperanza
Em meio a serpentina
Me fez lembrar que a minha poesia preferida
É aquela do Drummond
 “Mundo mundo vasto mundo
Mais vasto é o meu coração”

terça-feira, 26 de janeiro de 2016

Fui
Como as mulheres de minha família
Paciente
Com toda
Irresponsabilidade
Passividade
Mentira
Perdoei com a desculpa de que você
Nunca soube direito o que fazer
Quando no fundo eu sabia
Que você fazia tanta coisas
Sem que eu soubesse
Lembro disso
Quando me vem
A noitinha ou logo de manhã
Um tipo de buraco na boca do estômago
Um buraco pesado
Que amolece o corpo
Quando choro escondida no banheiro
Lágrimas que caem naturalmente ferozes
Como tempestades
Eu lembro
Que fiz minha parte
E tudo que eu ouvi foi
Silêncio
Seu ego me viu secar
Como aquelas rosas que a gente colocava em garrafas de cerveja usadas
Nós demoravamos pra tirá-las de lá
Porque elas pareciam belas
Mesmo mortas
Mesmo sem transmitir nenhum tipo de alegria
A gente enconde a verdade de nós mesmos
Quando é mais fácil
Ou quando dói