quarta-feira, 27 de março de 2019

Nasceu o poema!
Depois de tantas sinestésicas luas
Desfez-se nossa linha---------------- conjunta
E o que antes era semente única
Virou estrofes infinitas...
O chá para revelar a rima
O enxoval de aliterações
O berço de decassílabos
O ritmo do coração no ultra
som
Já chorando palavras polissêmicas
Veio, então, ao mundo concreto
Tive de libertá-lo do ventre
Em sacrifício à gente
Que necessita essencial alimento

Dedicatória

Não esquece
Pra existir Para:
De: sou eu
É minha tinta
Minha rima
Minha prática
O outro é só mote
No máximo
Inspira a métrica
A mágica
É de quem cria
O truque
É só meu

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2019

Encontro


O Clitóris mora em um sobrado
Para conhecê-lo
Não adianta bater à porta
Desesperado
Muito menos insistir
Na debaixo
Se quer encontrá-lo
Ande despretensiosamente
Pelas redondezas
Até que milagrosamente
Estejam frente à frente
E quando acontecer,
Por favor, seja gentil
Não banque o esperto
Mesmo com tudo certo
Convide-o com delicadeza
Para uma dança solta
De ritmo rápido e toque macio
Parecido com aquela
Em que só se mexe o quadril
Se não entender os passos
Não dificulte e deixe-se conduzir
Abrace-o por inteiro
Sinta suas pulsações
Perto do peito da mão
Envolva-o com emoção
E beije-o só quando entender
Que aquela a boca
Fala tão alto quanto seu falo

quinta-feira, 13 de setembro de 2018

Meu nome


Meu passado
África
Meu presente
Me apresento
Anna
Claudia
Ana minha vó
Claudia minha mãe
África meu umbigo
Eu não sei de onde eu vim
Mas sei quem veio comigo
Meus pares
Filhas da diáspora
Mães e irmãs
Tias e nanãs
Mulheres
Negras
Olhares que se cruzam
Desde a infância
A luta dos corpos políticos
Antes da militância
A sororidade
Antes do termo
O laço invisível
Que une as tranças dos nossos cabelos
Vive em mim
A história que insiste em ser apagada
Marcada em minha pele
Registrada em meu nome
Eternizada em minhas palavras

segunda-feira, 18 de junho de 2018


se eu não fosse poeta
te diria
o que é a tua presença
o que é a tua ausência
o que é minha vida
cheia de presenças
e de ausências

se eu não fosse poeta
você saberia
quando teu olhar me aperta
tudo que silencio
por não saber ser simples
como uma gata no cio

se eu não fosse poeta
não teria
essa estranha sensibilidade
que me impele
de ver tudo claro
que me faz amar o raro
de toda impossibilidade

se eu não fosse poeta
poderia
me desfazer
de tanta lucidez
e ficar louca
ao menos uma vez

se eu não fosse poeta
tudo seria
apenas um desejo
morto tão jovem
no primeiro beijo
ainda criança
ainda tão pequeno
ainda sem medo

se eu não fosse poeta
você entraria em mim
para ficar solto
em algum lugar
da lembrança
em vez disso
nada digo
e você fica preso
dentro do meu verso

Alice Ruiz

quarta-feira, 6 de junho de 2018

Ecoa

Calam o meu grito
Mas nas linhas do tempo
Minha palavra ecooooa
A vibração do couro
Libertou o corpo do açoite
Minha alma agora vooooa
Minha dor deixou de ser tristeza
Não coube em mim
Transbordou em foooorça

domingo, 3 de junho de 2018

Eram as deusas astronautas?

Eram as deusas astronautas?
Meus passos em direção aos astros
Do passado ao futuro
Foi um caminho longo... E duro
Mas se da terra viemos, à terra voltaremos
O rumo do ninho não se perde
Nua deixei e nua voltarei ao ventre
Do espaço até as pirâmides
Um rastro...
Era eu o cometa Harley
Viajando há anos-luz
O início é o fim do caminho
Eu cheguei a tocar as estrelas
Com os pés fincandos ao chão
Eram as deusas astronautas?
Ou era mãe-África a semente da vida
E nós o mistério do tempo?