segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

Exótica

É engraçado que eu e algumas mulheres sejamos consideradas exóticas, diferentes e outras coisas do tipo. Na verdade, não é engraçado, mas é curioso que eu me perceba sendo realmente uma espécie rara em alguns ambientes. Olho em volta e todo mundo é praticamente igual e eu sempre tenho poucas pessoas com quem eu possa me identificar. E aí, fica mais curioso, porque eu moro no Brasil e quantas mulheres negras e de cabelos crespos moram nesse país? Milhares. Só que quantas estão na mesma faculdade? No mesmo local de trabalho? E olhando para o lado estético, que é sobre o que quero falar, quantas tem o mesmo cabelo? Quantas não tem vergonha de usar turbantes (agora ninguém tem, porque está na moda) ou qualquer tipo de adereço que representa nossas raízes?
Em todos os lugares que eu vou, sempre tem alguém pra falar do meu cabelo, sempre. De como é bonito, de como é isso, de como é aquilo, é claro que eu gosto, mas é importante refletir em como um cabelo como o meu que era para ser comum em um país com uma população 50% negra, se torna o diferente, o exótico, algo a ser comentado.
Pouca gente quer ser o diferente, então a maioria se encaixa no padrão. Mais do que serem consideradas diferentes e exóticas, poucas meninas querem ser consideradas feias. Porque ser o que você realmente é, mulher negra com os cabelos crespos, ainda é considerado feio, sujo, marginalizado, não apresentável etc. Eu já falei sobre isso aqui. São palavras duras, mas são verdadeiras. Ainda enfrento preconceito da minha própria família por ter escolhido manter o meu cabelo natural. Escolha que fiz há pouco tempo, pois passei a vida alisando o cabelo. E acho que o preconceito que sofro da minha própria família, onde todos tem os cabelos crespos, vem do medo de que eu seja oprimida. Vem do medo de que eu enfrente desde piadinhas até a falta de credibilidade. E eu entendo isso. E acho importante que todos pensem sobre isso.
Estou me aproximando cada vez mais de gente com quem me identifico, seguindo páginas na internet  em que mulheres negras são protagonistas, meninas como eu, com quem eu posso trocar ideias. Me interesso por assuntos diversos, desde cuidados com o meu tipo de cabelo, pele, até todos os tipos de preconceitos que sofremos por sermos quem somos e como podemos empoderar meninas como nós.
Eu acho importantíssimo que esses espaços existam. Percebo muito que quanto mais as mulheres negras se identificam umas com as outras, mais percebem que o seu cabelo e sua roupa são, além de lindos, um ato político, uma forma de resistência. Resistimos aos padrões estéticos, enfrentamos o preconceito. E os black powers se multiplicam, as chapinhas e o formol vão para o lixo, e tudo isso deixa de ser exótico, diferente, estiloso e se torna comum, se torna natural.



domingo, 4 de janeiro de 2015

eu quero viajar

Durante a viagem
Eu juntei todos os cacos
Mas os estilhaços inflamaram a pele
E ainda não sarou
Ardia sempre nas águas doces dos rios

Eu sempre insisto em ficar
Quando me mandam embora
Eu sempre ouço as mesmas músicas
Eu tenho muito medo
De estancar o sangue
De sarar

Eu prefiro remédios
Cura efêmera da dor
Você falando baixinho no meu ouvido
Em um quarto desconhecido
Depois de dias sem querer dizer:
"Eu te amo"

domingo, 21 de dezembro de 2014

Mais um que você não vai ler e que eu escrevi com raiva

Tão dizendo por aí que a gente é o casal perfeito
Deve ser a tecnologia
Tipo Pitt e Jolie
Queria ver no dia-a-dia
Hoje em dia imagem é tudo
O povo acha bonito mistura de etnias
As vezes eu acho até legal, dá um efeito no instagram
Tiro uma foto nossa todo domingo de manhã
Que você não me dá nem bom dia
Eu finjo que ligo, mas tô cagando pras curtidas
É chato ser mina e realista
Minha vontade era ser romântica
E pensar:
Uma viagem a dois
Que bom!
Mas se pá eu queria ir sozinha
Sem câmera fotográfica na mão
Com mais amor no coração
Sem rotina
Sem olhar indiferente
Sem problema na mente
Até o silêncio
Que me incomoda tanto
Seria bom
Eu nunca soube fingir
Nem ser desprezada
Ou caminha comigo ou segue sozinho na caminhada
Eu não fui criada pra implorar migalha
Por favor,
Me beije
Me ame
Me olha
Sempre que possível
E sempre que não for
Nunca vou pedir
Mas aprecie as minhas poesias
Nunca esqueço nenhum neguinho que me elogia
Alimente meu ego
Porque o seu já tá cheio
E o meu saco também
Prefiro quando eu falo um monte de merda
E você diz amém
Do que quando você reclama
Que a gente não tem nada a ver
Que eu falo demais
E manda eu ir me fuder
Essa raiva só vai passar quando eu comer McDonalds
E você me comer


terça-feira, 2 de dezembro de 2014

a mesma rotina que esmaga é a que regenera
conviver é arte
é forma pura de amor
ceder e ser dois
também é libertação
renovando os pensamentos

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Desde a primeira vez
Que você disse
Quero ser livre
Eu me prendi
Em um sentimento de falta
E quis
Me prender pra sempre em você
Fiquei perdida
Me prendo até hoje
No passado
Me prendo na esperança
Me soltei dos meus problemas
E nos prendi no mesmo teto
Pra encontrar os nossos problemas
Me prendo nas coisas boas
Pra esquecer as ruins
Me prendo nas lembranças
Você
Me perde
Quero ser livre
Das paranoias
Que escondo até de mim
Me perco
E me acho em você
Me prendi em nós
Me perdi de mim
"Se você tiver que escolher entre você e o seu amor,
Você escolhe quem?


Você escolhe quem?"


domingo, 2 de novembro de 2014

Para André

O que movimenta sua cadeira-de-rodas
São seus pensamentos
A todo momento
Em movimento
O que abre seus caminhos
São seus olhos
Seu foco é meter
Um soco
Direto
No reto
Da moral
É um moleque do bem
Que simpatiza com o mal
Com o mal-falado
Com o mal-vestido
Com o mau-caráter
Com o maltrapilho
Seu pouco amor é todo dos incompreendidos
E da primeira mulher que aparecer
Despida
E disposta a se divertir
Sua história é de poeta nato
Consciente e perturbado
Louco pra não ter o que fazer
Foi dar um rolê no inferno
E o diabo não te quis
Foi até o céu
E deus te renegou
O jeito foi voltar pra terra
Pra terminar o seu melhor poema
Que até hoje ele não acabou.